Troca de papéis anima "Chapeuzinho Vermelho"

Um dos contos de fadas mais populares do mundo todo, Chapeuzinho Vermelho, está com uma versão nota 10 em cartaz no Teatro Cultura Inglesa, pelo grupo Le Plat du Jour. Se a história se chama Chapeuzinho, por que não contá-la a partir dos chapéus diversos que cada personagem usa? É assim nesta criativa montagem.A dança dos chapéus de uma das cenas iniciais é a chave metafórica para que se compreenda todo o jogo que se desenrola no palco a partir daí. As duas atrizes (Alexandra Golik e Carla Candiotto) revezam-se nos cinco papéis (mãe, avó, filha, caçador e lobo) com uma simples troca de chapéu, feita quase sempre em cena aberta, à frente do público.Há trechos, até, em que as duas falam sobre isso ("Tá bom, então, eu fico com esse chapéu e faço a vovó, enquanto você continua sendo o caçador!") - lúdica iniciação da garotada nos ilimitados recursos da metalinguagem. E mais: em uma das cenas, o chapéu do lobo vai parar na cabeça de algumas pessoas da platéia, para que elas também participem do jogo proposto pelas atrizes e do pacto firmado no início do espetáculo.Essa participação é feita esperta e acertadamente no momento da trama em que o caçador vai perseguir e capturar o lobo mau, rumo ao final feliz. Fazer a criança, nessa hora, se colocar no lugar do lobo, do vilão, do perseguido, do sedutor animalesco, é uma forma de mexer mais fundo com suas emoções, estimulando-a e iniciando-a nos jogos que terá de enfrentar ao longo da vida. Quem é você nessa história? Quem virá a ser? O lobo é sempre errado? Chapeuzinho é sempre a vítima? O caçador é sempre corajoso? A mamãe é sempre boa? A vovó é sempre pacífica?A montagem tem suas ousadias de linguagem cênica, mas não abandona as características fundamentais que faz de Chapeuzinho Vermelho um clássico universal do gênero. Um desses momentos de reverência ao clássico é o passeio da personagem pela floresta, em que ela se distrai observando a beleza das flores e conversando com passarinhos. É o eterno conflito infantil, a ambivalência entre viver pelo princípio do prazer (continuar colhendo flores e se divertindo pelo caminho) ou pelo da realidade (tornar-se ciente de suas obrigações).Ao mesmo tempo, nesse passeio da personagem "pela estrada afora", além das flores e dos pássaros, surgem um jacaré e uma minhoca (que ganha até um nome, Maria Luísa). Ou seja: o grupo Le Plat du Jour, além de valorizar os elementos metafóricos e simbólicos do texto original (flores, pássaros), também se preocupa em fisgar a atenção da atual geração de crianças, lançando mão de elementos novos agregados ao que elas já conhecem da história milenar.Esse casamento tradição-inovação é feito na peça de forma exemplar: inteligente e coerente. Não há em momento nenhum uma reelaboração ou desconstrução do conto tradicional feita de forma grosseira e inconseqüente, em nome de uma pretensa modernidade.Outro exemplo disso? A idéia psicanalítica de que o lobo representa para a menina pré-púbere o papel do sedutor masculino assim como o papel do instinto animalesco e perverso que todos mantemos dentro de nós, também está presente na montagem e de forma renovada. É a cena em que Chapeuzinho vê pela primeira vez o lobo: ela recolhe do chão uma linda flor e a olha embevecida. Nesse momento de sugestão de prazer, surge o lobo, desfilando galante em cima de uma bicicleta de circo (nunca a opção do grupo pela linguagem cênica mista é abandonada), ao som de uma trilha grandiosa e uma iluminação que sugere o clima de fascínio/perigo exigido pela cena.Quando o caçador retira a vovó e a neta de dentro da barriga do lobo, surge também uma cena muito bem resolvida. É tudo tão ágil que as duas atrizes trocam de papel durante o desenrolar da ação, sem que essa mexida explícita na convenção atriz-personagem atrapalhe o andamento da própria fantasia instaurada pelo texto.A trilha sonora não utiliza o som do tiro da espingarda do caçador, que, aliás, é um objeto apenas sugerido pela mão da atriz, como os meninos brincavam antigamente de mocinho-bandido em seus quintais, sem as réplicas realistas, com raios laser, vendidas hoje até em barraca de quitanda. O texto brinca com a morte do lobo, como se o tiro tivesse acertado, em vez dele, um biombo de madeira utilizado no cenário. Esse humor inesperado, típico de história em quadrinhos, tira o "peso" de violência que a cena poderia conter.Uma brincadeira (outra) perpassa toda a peça, do começo ao fim, repetida enfaticamente. Uma atriz diz "Vá!", a outra ameaça ir, mas a primeira volta a ordenar: "Espere!" Esse jogo vacilante de "vá-espere" diverte a platéia e tem a função de representar os temas fundamentais de Chapeuzinho Vermelho: o medo do perigo, da ameaça premente, e a insegurança.Chapeuzinho Vermelho - Sábado e domingo, às 16 horas. R$ 10,00. Teatro da Cultura Inglesa - Pinheiros. Rua Deputado Lacerda Franco, 333, tel. 3814-0100. Até 17/6.

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