Triunfo da vontade coletiva

Exposição no MAM do Rio é mais novo caso de crowdfunding bem-sucedido

ROBERTA PENNAFORT / RIO, O Estado de S.Paulo

20 de novembro de 2011 | 03h09

Um catálogo, um livro, um poema, um convite para a vernissage. Foram as recompensas oferecidas a quem investisse R$ 15 ou até R$ 2 mil na viabilização da exposição Tudo Vai Ficar da Cor Que Você Quiser, de telas de Rodrigo de Souza Leão (1965-2009), no Museu de Arte Moderna do Rio.

É a primeira vez que o financiamento de uma mostra do MAM se dá pelo público nela interessado, e não pelo museu ou uma empresa patrocinadora. Em cartaz até janeiro, ela fecha o ano de expansão no Brasil do crowdfunding na área cultural.

O esquema de financiamento coletivo surgiu nos Estados Unidos e chegou aqui em 2010, levantando dinheiro para shows, livros, CDs, filmes e peças de teatro sob risco de não se realizar, e livrando produtores dos apuros dos editais de patrocínio.

Poeta, ficcionista, letrista e pintor nos últimos três meses de vida, depois que passou a frequentar a Escola de Artes Visuais do Parque Lage, Souza Leão, diagnosticado esquizofrênico paranoico e vítima de ataque cardíaco durante uma internação voluntária, fez sua trajetória na internet. E é na rede que se espalha o culto à sua curta obra.

Foram os fãs do rico universo interior e de seu estilo cortante, lírico e irônico, que contribuíram - não só com dinheiro, mas também com divulgação em redes sociais -, para que Ramon Mello, o curador, chegasse aos R$ 33 mil necessários para custear cada etapa: o transporte das 30 telas, o aluguel dos equipamentos de vídeo, a plotagem dos textos.

"As pessoas se sentem donas do projeto. Conseguir realizar é uma alegria imensa, que não tem nome", conta Ramon. "Elas falam 'a minha exposição', 'o meu catálogo'. Quando vieram, ficaram muito emocionadas", exemplifica Marta Mestre, curadora-assistente do MAM.

É a vontade de fazer acontecer que parece diferenciar os colaboradores amealhados por grupos como Queremos (cujo portfólio tem 19 shows internacionais e um festival), Catarse, Embolacha, Movere e Incentivador, que apostam previamente num projeto artístico, daqueles que vão ver a exposição, o show, o filme ou a peça já em cartaz.

Se o montante necessário não é atingido no prazo estipulado (um mês, 45 dias, 90), os que se cotizaram são ressarcidos. Ou seja, é satisfação garantida ou seu dinheiro de volta.

No caso de Souza Leão, a mobilização foi pelo Catarse, que atua em São Paulo, no Rio e no Sul do País. Inspirado no modelo "tudo ou nada" norte-americano do Kickstarter, a maior plataforma do gênero no mundo, com milhares de projetos em andamento, e em atividade desde janeiro, o Catarse conseguiu levantar R$ 1,1 milhão, com 9 mil apoiadores.

Foram 110 projetos, em 23 áreas - do CD de estreia d'A Banda Mais Bonita da Cidade, que teve entre suas compensações um "desenho tosco" da vocalista e uma festa na casa onde foi gravado o famoso videoclipe, a livro de moda, espetáculo de dança, revista sobre crítica de arte... Os valores, que determinam o nível da recompensa, podem ser R$ 5 mil ou R$ 50 mil, ou até mais.

Noventa proponentes fracassaram. "Não tem uma regra. É algo muito novo no Brasil, um trabalho de divulgação que não é só on-line", conta Pedro Struchiner, um dos sócios. "De literatura não conseguimos ter um projeto bem-sucedido até agora."

Ele, Ramon e outros envolvidos em iniciativas de crowdfunding participaram semana passada do debate Aperte F5, no Sesc Tijuca. Foi levantada a possibilidade de se pleitear junto ao Estado um estímulo a este modelo; por exemplo, com a dedução de impostos de pessoas físicas e empresas colaboradoras. Não é algo que agrade a todos, uma vez que o segredo do sucesso do crowdfunding pode estar em seu descomplicado sistema.

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