Filipe Araujo/Estadão
Filipe Araujo/Estadão

Triunfal e intimista

Diretor italiano fala sobre contrastes que guiam sua concepção de 'Aida'

João Luiz Sampaio, de O Estado de S.Paulo,

09 de agosto de 2013 | 02h16

Incidentes com camelos, elefantes e cavalos; pirâmides desabando; piras de fogo fora de controle. Não é pequeno o histórico de episódios pitorescos envolvendo montagens de Aida, de Verdi, mundo afora. E não é por acaso: como recriar, no espaço de um palco de ópera, a monumentalidade do Egito antigo é uma questão que preocupa diretores cênicos desde a estreia da obra, em 1871. Qual o melhor caminho: apostar em uma recriação naturalista ou ir no sentido contrário, investindo em cenários e figurinos abstratos?

Para a montagem que abre hoje a temporada de óperas do Teatro Municipal, o diretor cênico Marco Gandini tenta encontrar um meio-termo. Ele trabalhou, durante mais de uma década, como assistente do encenador e cineasta italiano Franco Zeffirelli, responsável por produções majestosas em palcos como o Metropolitan de Nova York, onde sua Aida segue em cartaz quase quatro décadas depois da estreia. Mas, em São Paulo, o que propõe é, antes de mais nada, uma leitura que nasça do texto e da música.

"Minha concepção não é abstrata, não é simbólica, não é contemporânea", ele explica. "É uma representação clássica, o que significa que se mantém ligada ao texto e ao drama. Partimos de uma análise do texto, das palavras, da estrutura musical, para compreender quais os conteúdos e significados do drama e do texto. E, depois, foi preciso compor os elementos da cenografia - a cena, os figurinos, a iluminação, a expressão -, buscando uma proporção na qual estes significados - paixão, amor, ódio, liberdade - ficassem claros. E, claro, cada um deles vem recomposto por meio de uma linguagem artística poética e simbólica, por analogias, contrastes, metáforas. Mas o foco, sempre, será a clareza na descrição do drama."

Aida é uma princesa etíope que vive como escrava de uma princesa egípcia, Amneris. As duas disputam o amor do mesmo homem - o soldado egípcio Radamés, que derrota na batalha o pai de Aida, Amonasro. As implicações são muitas, mas, em resumo, o que Verdi retrata na ópera é a relação entre a paixão e o desejo individuais e o dever coletivo - tema que perpassa boa parte de sua obra e, na Aida, cria um contraste entre momentos monumentais e públicos, como a Marcha Triunfal do segundo ato, e outros mais intimistas, como os duetos do terceiro ato ou a cena final da ópera.

Para Gandini, um dos desafios do diretor é justamente trabalhar essa contraposição. "A proporção entre momentos triunfalistas e outros mais intimistas foi uma preocupação do trabalho com o cenógrafo. Não se trata apenas do segundo ato, mas também do primeiro, quando chega o Rei e o palco se abre para a entrada do coro. E, então, temos o terceiro e o quarto atos, muito delicados. A solução é uma alternância rítmica da cena, do grande ao pequeno. Podemos pegar o terceiro ato como exemplo: trata-se de uma só cena, que tem um ritmo dramático muito claro, desde a ária inicial, passando pelos dois duetos até chegar ao final. São quatro momentos distintos, que exigiram soluções diferentes, mas que mantém a mesma concentração intimista e lírica."

Para Neschling, a música também retrata esses contrastes. "É uma questão para Verdi e faz-se presente especialmente na Aida. A Marcha Triunfal, claro, é muito importante, tanto que marcou não apenas a carreira de Verdi, como também o repertório operístico de modo geral. Mas, de certa forma, o segundo ato é que é atípico dentro da Aida. Se você observa o terceiro e o quarto atos, chega à conclusão de que se trata praticamente de uma ópera de câmara, em que cantam dois, no máximo três personagens. À medida que a ópera se encaminha para o final, ela fica cada vez mais intimista, até acabar em uma tumba."

Verdi e Wagner. Ao longo de sua carreira, Verdi promoveu transformações no drama musical italiano - do início, mais próximo à tradição e ao esquema de separação de números, à maturidade, em que propôs uma narrativa mais orgânica. Em outras palavras, texto e música passam a se relacionar de outra forma - e a favor de um discurso teatral mais fluido. Para Neschling, Aida é um ponto de virada nessa trajetória. "A grande inovação me parece ser a falta dos números estanques", diz. "O discurso musical não é interrompido. Há arias, duetos e trios, claro, mas eles surgem de forma mais orgânica na ação - e o teatro ganha com isso."

Ao longo de 2013, o mundo da ópera comemora os bicentenários de Verdi e Wagner, compositores que viveram na mesma época e, cada um a seu modo, propuseram avanços no gênero. Para o maestro, tanto tempo depois, mais do que anotar a diferença entre eles, é interessante pensar em como eles se aproximam ao longo de suas carreiras. "Não devemos pensar em termos de duas linguagens distintas que se desenvolveram independentemente da outra. Mas, claro, cada um tem suas características e, em Verdi, há a grande aria, o modo e a emoção como ele a constrói, a melodia italiana. São elementos que ele nunca perdeu."

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