TRISTEZA COMO FORÇA MOTRIZ

A jornalista Sylvie Simmons fala sobre livro em que articula vida e obra de Leonard Cohen

ROBERTO NASCIMENTO, O Estado de S.Paulo

30 de dezembro de 2012 | 02h07

Aos 14 anos, Leonard Cohen se interessou por hipnose. Comprou um livro, aprendeu a técnica e fez com que uma de suas empregadas se despisse em sua frente. Trata-se de uma das histórias contadas em I'm Your Man, nova biografia do poeta e cantor canadense, escrita pela jornalista musical Sylvie Simmons, e disponível no Brasil em e-book, sem tradução. Leonard amadureceu, virou rock star, mas para Simmons, cujo carinho pelo artista transparece pelo livro e seria questionável não fosse a qualidade de texto e pesquisa, sua essência permaneceu intacta: tanto o desejo de conquistar, quanto a luta contra a depressão foram transformados em uma das grandes obras do cancioneiro americano do século 20. O Estado falou com Simmons, autora de biografias sobre Neil Young e Serge Gainsbourg, sobre seu elogiado livro.

Com poucas exceções, o cancioneiro de Leonard Cohen é tristonho. Você usa boa parte do livro para abordar o assunto. Como é esta relação entre arte e sofrimento para Leonard?

É a força motriz de sua vida e criatividade. Ele escreve para silenciar as vozes que o atormentam. Por muito tempo, foi uma luta sobreviver a cada dia. Ele me deu carta branca para falar de tudo. Disse que não queria dar nenhum retoque.

E houve muitas surpresas,

coisas de que você não sabia,

ao vasculhar sua vida?

Eu fiquei impressionada com a quantidade de substâncias psicotrópicas que ele usava. Desde o jejum, que, prolongado, induz a alucinação, a anfetaminas. Ele usava muita anfetamina. Passou os anos 70 e parte dos 80 praticamente ligado em speed. "Eu não teria conseguido trabalhar sem isso", ele me disse. "Sou muito devagar."

O vínculo com a religião,

componente importante de

suas letras, foi uma forma de

buscar a salvação?

O Leonard deixou muitos, eu inclusive, acreditarem que, porque ele resolveu morar em um mosteiro budista, e foi iniciado como monge, ele havia se curado. Mas não foi o caso. Ele morou no mosteiro de Mount Baldy, na Califórnia, por cinco anos. Certo dia, havia deixado Roshi, seu mestre, no aeroporto. Uma de suas funções, além de cozinheiro, era ser motorista. Leonard é um filantropo, e sustentava dois mosteiros de seu mestre, mas não gosta de falar sobre isso. Na ocasião, ele havia comprado um antidepressivo que supostamente colocaria um piso na sua depressão. Pior que isso ele não ficaria. Na volta do aeroporto, ao subir o morro, ele parou o carro, pegou os remédios e os jogou fora. Ele disse que, se fosse descer, seria "com os olhos abertos".

O Leonard Cohen que fala ao público nos dias de hoje parece um ser iluminado. É difícil imaginar tanto sofrimento.

Quando ele saiu do mosteiro, lia um livro de um guru hindu, então pegou o primeiro avião e foi para a Índia. E finalmente ele conseguiu. Seu guru disse que era uma combinação de tudo o que havia aprendido. Ele frequentou o mosteiro dois meses por ano, durante 30 anos. Não para mudar de religião. Leonard sempre foi judeu. Não mudou seu nome. Lê os textos sagrados, segue a tradição.

Você diz no livro que as musas estão presentes em sua arte

muito antes de ele escrever

Suzanne, ou Marianne.

Ele foi um poeta famoso no Canadá, antes de gravar seu primeiro disco. Nos anos 50, antes da febre do rock'n'roll, os poetas eram os rock stars. Eram eles os assediados pelas tietes. Leonard descobriu, quando começou a ler sua poesia em saraus, que isto atraía garotas. Então, começou a fazer poesia para seduzir as meninas. Quando finalmente virou músico, suas musas simplesmente mudaram de formato.

É curioso que Suzanne, a mais famosa, não foi um caso.

Suzanne não foi sua amante, mas eles tiveram um relacionamento platônico. Logicamente, ele tentou a levar para a cama, mas ela era mulher de um grande amigo seu. Outra Suzanne foi sua esposa e mãe de suas duas crianças.

Leonard já disse que sua poesia e música são a mesma coisa, e tudo o que faz tem música ao fundo, até seus romances. Como funciona seu processo criativo?

Certa vez, ele esteve em Paris e foi a um café com Bob Dylan. Leonard fazia sucesso com Hallelujah na época, e Dylan, que gostou muito da letra, perguntou para ele quanto tempo havia demorado para compor a música. Leonard disse "dois anos", pois teve vergonha. Na verdade, foram seis. Leonard tinha um caderno inteiro com versos para Hallelujah, que depois de 5 anos virou uma música com 80 versos, e depois de mais um, a versão original. Leonard então perguntou a Dylan quanto tempo havia demorado para fazer uma de suas músicas. Dylan disse: "15 minutos. Fiz num Táxi". Nunca conheci um artista tão perfeccionista, e tão duro consigo mesmo, quanto Leonard.

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