Triste melodia da solidão

Sob o som do jazz, Side Man acompanha o desencontro de personagens unidos apenas pelo amor à música

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2010 | 00h00

Infortúnios e alegrias. A peça 'Side Man' fala sobre o núcleo familiar, especialmente o disfuncional.

 

 Sideman é a palavra em inglês para designar o músico profissional contratado para se apresentar ou gravar com um grupo do qual não faz parte. São figuras assim, tão dedicadas à música que deixam os infortúnios em segundo plano, os protagonistas de Side Man, drama musical escrito pelo americano Warren Leight em 1998 e cuja versão nacional estreia hoje, no Teatro Sérgio Cardoso.

A trama acompanha a trajetória de Clifford, rapaz de 29 anos que deixa sua casa em Nova York e se muda para Califórnia com a intenção de se tornar artista plástico. Lá, tomado pela saudade, ele começa a relembrar a sua história pessoal. "Mais que um musical, Side Man é uma peça sobre o núcleo familiar, especialmente o disfuncional", conta Zé Henrique de Paula, que dirige a montagem. "Clifford é filho de um casal inconciliável e, por conta disso, ele tem dificuldade para assumir o controle da própria vida."

Gene, pai de Clifford, é um trompetista de talento, com um toque superior a Dizzie Gillespie, e que vê na música a razão da própria existência. Ele faz parte de uma trupe formada por outros três instrumentistas igualmente bons: Ziggy, Al e Jonesy. Gene é casado com Terry, fascinada por seu talento musical. A dedicação do marido, porém, logo a deixa em um plano secundário. Assim, a música, depois de atraí-los, é também o motivo para separá-los - solitária, Terry mergulha aos poucos no desequilíbrio e no alcoolismo. E Gene, cada vez mais fissurado pela música, desliga-se da própria vida.

"A peça é carregada de traços biográficos, pois o pai de Warren Leight era um trompetista sideman, ou seja, Clifford é seu alter ego", comenta Zé Henrique que, ao iniciar a preparação do espetáculo, há quatro meses, logo descobriu semelhanças com um clássico da dramaturgia, À Margem da Vida, de Tennessee Williams. "Ambas são histórias de memória, em que o narrador é personagem e protagonista ao mesmo tempo."

A história percorre um largo período, entre 1953 e 1985, e marca também o temor histórico sofrido pelos músicos que, com o surgimento do rock"n"rol, acreditavam que o jazz iria desaparecer. "É por isso que a música desponta como elemento de contraste, pois reforça a indefinição vivida por aqueles artistas contratados, que não podiam desenvolver sua individualidade de solista e também não cultivavam condição de solista em uma orquestra", conta Zé Henrique, jazzista inveterado, responsável por uma bela seleção de canções que acompanha o desenvolvimento da história (veja lista completa no quadro abaixo).

O trabalho de investigação foi também cuidadoso na elaboração do cenário e dos figurinos - o diretor conta ter se influenciado na arte de Norman Rockwell (1894-1978) e Edward Hopper (1882 -1967) para compor a distinção que marca cada um dos dois atos do espetáculo. "A generosidade de Rockwell caracteriza a esperança que marca o primeiro ato, enquanto o universo restrito e sem ilusões de Hopper é o retrato do segundo, com a desilusão dominando."

O elenco foi definido por audições e tem Sandra Corveloni, Alexandre Slaviero, Otávio Martins (na foto acima), Gabriela Durlo, Daniel Costa, Eric Lenatti e Luciano Schwab. "Trabalhamos a fim de descobrir as nuances do texto", disse o diretor.


CLÁSSICOS NO PALCO

1. I Remember Clifford

2. Take the Train

3. Prélude Aprés Midi d"Un Faune

4. In the Mood

5. Tuxedo Junction

6. I"ll be Seeing You

7. St. James Infirmary Blues

8. A Night in Tunisia

9. Jailhouse Rock

10. Stomping at the Savoy

11. Ko Ko

12. Someone to Watch over me 13. What"s New

14. It Never Entered My Mind 15. Why Was I Born

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