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Lúcia Guimarães
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Triste horizonte

Parece que estava adivinhando. Escrevi para o Aliás de ontem sobre o Vórtex Polar que castigou os Estados Unidos na semana passada. Estava a bordo de um voo para o Rio, alertada para a onda de calor escorchante que me esperava. Concluí o texto com uma admissão: ainda que carioca, criada na praia, não me importava de voltar para o ar gelado. Desliguei o computador e não entendi o significado da frase até a madrugada de domingo, quando mais um apagão da Light me despertou. Saí tateando atrás do celular, encharcada de suor, e não foi difícil confirmar o óbvio. Na mídia social, havia fotos de ruas de Ipanema mergulhadas na escuridão. O apagão afetou também sabe-se quantas ruas em volta da Lagoa Rodrigo de Freitas. Minha fonte não é a Light e sim seus consumidores que, pelo que me contam, preferem ser chamados de reféns.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

13 Janeiro 2014 | 02h09

Às 4:30 da manhã, recebi o recado pelo Twitter: "Olá @luciaguimaraes! Você comunica a falta de luz enviando por DM para o @lightclientes #luz instalação, com espaço. Ex: #luz 040666663"

Como se o ponto de exclamação aliviasse o sufoco. Questionei o pedido de comunicação oficial. Suponho que quem estiver no controle de uma estação deve ter equipamento para detectar o apagão. De qualquer modo, não poderia enviar uma DM (quantos usuários saberão o que é DM - Direct Message - ou saberão enviá-la?) por não ter conta, estou hospedada num apartamento. Perguntei se a companhia aceitava o método empírico: não consegui ligar nenhum aparelho, fui à janela e os outros prédios estavam igualmente escuros aqui na rua.

Às 6 horas, fez-se a luz, perguntei se iam dar satisfações sobre o motivo do apagão e fui informada de que ainda estavam apurando a origem do apagão. A origem, como sabem muitos cariocas, não é mistério algum e precede o que quer que tenha acontecido na madrugada de ontem. Os pontos de exclamação e expressões de simpatia continuaram:

"Olá @luciaguimaraes! Trabalhamos constantemente para minimizar a possibilidade de interrupções. Se precisar novamente, conte com a gente." A mensagem está longe de me tranquilizar. A Light tinha estourado em 70%, em novembro, a expectativa de interrupção no fornecimento de energia da Agência Nacional de Energia Elétrica para 2013. Quem é que pode contar com ela?

Na semana passada, recolhi uma pérola de corporativês quando explosões de bueiros no Rio foram definidas pela Light como "deslocamentos de tampas". Quem sabe, logo os apagões serão descritos como "saunas grátis".

Há seis semanas quando passei pelo Rio, embarquei num terminal às escuras do Galeão, que me recuso a chamar de Tom Jobim porque o Tom era meu amigo e não posso associá-lo a tal edifício público. Executivos da Associação Internacional de Transporte Aéreo se referem ao aeroporto do Rio de Janeiro pelo nome de um empobrecido país africano que não vou citar porque não quero insultar seus habitantes.

Há menos de 10 anos, exaltava em público os motoristas de táxi cariocas. Eles se saíam muito bem na comparação aos mal humorados e mal asseados motoristas nova-iorquinos que esperam de nós passageiros fluência em urdu. Os motoristas cariocas eram amáveis, engraçados, davam conselhos sentimentais e, ao contrário da concessionária de energia, a gente podia contar com eles. Várias vezes confiei amigos americanos aos que tinham algum conhecimento de inglês e nunca ouvi uma queixa sobre comportamento ao volante ou cobrança desonesta.

Agora uma corrida de táxi no Rio é um esporte radical sem equipamento de segurança. Minha anfitriã me conta que tem sido recusada por táxis vazios porque os motoristas querem evitar tráfego intenso. Nem a nova multa de R$ 625 pela recusa faz arrefecer a petulância. Tomei um táxi no sábado e mal deu tempo de dar o endereço completo. O motorista logo passou a mão no celular e começou a se queixar a uma companhia de cobrança de pedágio por débito que havia bloqueado sua conta. A conversa durou todo o trajeto em alta velocidade com uma só mão ao volante.

O Rio que eu deixei ficava num país subdesenvolvido. O Rio que visito hoje fica na sétima economia mundial. Suas favelas têm websites anunciando acomodações para turistas com TV's de plasma. Famílias de baixa renda possuem múltiplas linhas de celular mas as contas são exorbitantes e a ligação cai a toda hora. Sob o verniz da explosão de consumo há um colapso de serviços e civilidade que frequentemente torna o Rio irreconhecível. É como se a imagem da cidade que carrego comigo tivesse sido capturada por Marc Ferrez. A informalidade cordial e o bom senso foram substituídos pela linguagem robótica do corporativês coalhado de gerúndios atrás do qual se escondem todos os prestadores de serviço, seja num balcão, on-line ou por telefone.

Se antes a cidade operava numa rotina de contatos pessoais, com todas as falhas e a burocracia cartorial, hoje a interação é predominantemente transacional. O porteiro onde me hospedo numa rua afluente me vê carregada de volumes e não lhe ocorre destrancar o portão, palavra cujo radical é compartilhado pelo nome da sua profissão. Ele é um trabalhador orgulhoso e independente? Não, é um trabalhador certo da impunidade que observa à sua volta.

A cidade-cartão postal do Brasil no exterior nunca atraiu tanta atenção na mídia internacional. Mas não é a atenção desejada pelos autores do projeto megalomaníaco de hospedar a Copa e os Jogos Olímpicos num espaço de dois anos. É uma cobertura sobre despreparo para sediar os eventos, corrupção, injustiça social, pobreza e violência. Ainda que os presos tenham sido degolados no Maranhão, o Rio continua, no imaginário internacional, a sala de visitas do Brasil.

Uma pichação conhecida do tempo da ditadura militar emendava o slogan "Brasil, ame-o ou deixe-o" com a frase, "o último que sair, apague a luz do aeroporto." Quase meio século depois, é o desgoverno dos civis que escurece a cidade.

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