Ernesto Rodrigues/AE
Ernesto Rodrigues/AE

Trio de atores está afinado em 'Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios'

Filmagens foram realizadas em parte no Pará, em Santarém e Itaituba, às margens do rio Tapajós

LUIZ ZANIN ORICCHIO - O Estado de S.Paulo,

02 de maio de 2012 | 03h07

Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios: esse título poético, tirado ipsis litteris do romance de Marçal Aquino, dá a Beto Brant e Renato Ciasca a chance de abrir novos caminhos em sua parceria de cineastas.

Em certo sentido, é seguimento da investigação de Beto Brant sobre as relações amorosas radicais, como em Cão Sem Dono, Crime Delicado e O Amor Segundo B. Schianberg. Por outro lado, o triângulo amoroso, cujo vértice principal é a instável e envolvente Lavínia (Camila Pitanga), parece mesmo muito singular. Assimétrico, fecha-se com os outros dois polos da relação, muito diferentes entre si - o pastor Ernani (Zécarlos Machado) e o fotógrafo Cauby (Gustavo Machado).

O drama - porque se trata de um - dá-se na região amazônica. Mas nenhum dos três a ela pertence. Vieram de outra parte do País, o sudeste. Cauby veio por motivos misteriosos, mas se pode supor seja aventureiro da alma, um ser errante, desses que desejam ver coisas novas, pessoas diferentes, imergir em cultura alheia. É um fotógrafo. Profissão repórter, poderíamos ajuntar, como a de Jack Nicholson no filme de Michelangelo Antonioni. Um desgarrado de si mesmo, e talvez, como o outro, em busca de nova identidade.

As filmagens foram realizadas em parte no Pará, nos arredores de Santarém e Itaituba, às margens do Tapajós, afluente do Amazonas. Lá, encontramos esse personagem talvez romântico e desiludido: Cauby; uma mulher de passado misterioso e temperamento oscilante como as marés: Lavínia; um pastor que destoa do estereótipo em geral associado a esses religiosos: Ernani. Os três, vividos por intérpretes magníficos e entregues por completo aos seus papéis. Uma palavra sobre Ernani: "Não quisemos vincular a figura do pastor Ernani a nenhuma ideia de fanatismo religioso; ele é apenas um idealista", diz Beto Brant.

Esses personagens são vistos ora de perto, ora mais afastados, para que o contexto se imponha. A câmera "escreve" essa relação. Ora muito próxima aos personagens, em seguida se afasta para abarcar o entorno. Há um fluir suave das imagens, na contracorrente da estética publicitária dominante no cinema brasileiro. O efeito se explica pelo método: "Filmamos sempre em planos sequência (sem cortes), até o final de cada bobina de oito minutos", explicam Brant e Ciasca.

É a segunda parceria entre os dois como diretores (a primeira foi em Cão Sem Dono) e a quinta, tendo Beto como cineasta e Renato como produtor. Velha amizade e antiga colaboração, que torna a "sociedade" autoral algo simples e complementar.

Há que se destacar também o surpreendente registro visual do filme, em nada parecida com a pouco inspirada estética dominante do cinema brasileiro atual. Ele é devido a Lula Araújo, diretor de fotografia.

Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios se constrói como mergulho radical no Brasil, país de felicidade e dores extremas, de cores e sombras, de pulsão pelo novo e conservadorismo. País de contrastes - como já definiu alguém. Para retratá-lo, um filme perfeito e certinho não bastaria. Melhor uma pintura imperfeita, mas como imagens tão vívidas que nunca nos saem da memória.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.