Trio baiano um passo além da surf music

Retrofoguetes sofisticam seu rock instrumental mesclado a outros ritmos

Lauro Lisboa Garcia, O Estado de S.Paulo

19 de maio de 2010 | 00h00

 

Retrofoguetes. Além do Studio SP, eles tocam na TV Trama e na Virada Cultural Paulista.

 

 

O trio baiano Retrofoguetes saiu na frente, em 2002, nessa bem-vinda e crescente tendência de bandas que produzem música instrumental dançante a partir do rock. Hoje, no Studio SP, eles fazem o primeiro de três shows em terras paulistas, dando ênfase ao repertório do novo e independente álbum, Chachachá. Na sexta, eles se apresentam ao vivo na TV Trama, às 16 h, e no domingo tocam na Virada Cultural Paulista, às 14 horas, no Palco do Povo, em Presidente Prudente.

Além de Morotó Slim (guitarra, guitarra baiana, violão, lap steel e voz em uma faixa), Rex (bateria, castanholas e pandeirola) e CH Straatmann (contrabaixo elétrico e acústico), o CD tem o dedo do maestro Letieres Leite (criador da Orkestra Rumpilezz), que assina os arranjos de sopro, e a guitarra baiana de Aroldo Macedo, filho de Osmar, criador do instrumento que revolucionou a música baiana nos anos 1950.

Apesar de distribuírem fotos em que fazem poses que lembram os alemães do Kraftwerk, Straatmann faz questão de frisar que a música deles nada tem de eletrônica. "Somos analógicos, nossos instrumentos são tocados. O Kraftwerk é uma banda que curtimos, mas a influência estética vem principalmente de filmes e seriados B de ficção científica. Muito do que ouvimos, lemos ou gostamos pode vir a influenciar nossa música em alguns aspectos", diz o baixista. "A surf music continua sendo um viés forte no nosso trabalho, os timbres e intenções estão todos lá."    

 

Confira o áudio:

Ouça trecho da faixa Vênus Cassino

No segundo disco de carreira (eles também gravaram um só com músicas de Natal em 2004), o trio de Salvador decidiu explorar mais "a capacidade de compor variados temas", mas suas principais características "sonoras e pessoais" prevalecem. "Creio que conseguimos criar uma identidade muito própria, mesmo tocando coisas diferentes. Decidimos trabalhar para a música, então se surgia um tango ou um mambo entre nossas composições, o que fazíamos era tentar tocar aquilo com real sinceridade. Esse tem sido o nosso caminho", prossegue o músico.

 

Chachachá representa um significativo avanço na sonoridade do power trio, cada vez mais coeso e criativo. A base de surf music é sólida, mas eles acrescentam levadas latinas como em Maldito Mambo! e o tango Constelación, de funk (Vênus Cassino), polca em versão trio elétrico (Mademoiselle Zazel), tarantella com influências de Nino Rota (Santa Sicilia) country (Wreining Rouing Mi Maind, cantado em "embromation"). Em Bikini, 1958 eles usam o instrumento havaiano ukulele. Tudo muito bem tocado e com senso de humor.

"Existe uma definição que diz que música instrumental é aquela que não tem letra. Decidimos brincar com isso. Fizemos uma música cantada, mas que na verdade não possui letra, apenas vocalizes simulando algo sem sentido. Por definição então, é música instrumental", diz Straatmann.

Como bem lembra o baixista, no primeiro álbum, Ativar Retrofoguetes! (2003), eles tocaram bolero, polca, valsa, hardcore, além da surf music e da linguagem rockabilly. "Aprimoramos nossa capacidade de compor e decidimos investir nisso, mas há uma linha contínua entre os dois trabalhos. Nosso mambo acabou num ambiente de big band de jazz. Pensamos alto e isso só foi possível com a ajuda do maestro Letieres Leite, que fez os arranjos conosco." Maldito Mambo! recebeu o prêmio de melhor arranjo no festival de música da conceituada Rádio Educadora de Salvador.

SERVIÇO:  Retrofoguetes

Studio SP. Rua Augusta, 591, tel. 11 3129-7040. Lançamento do CD Chachachá Hoje por volta de meia-noite e meia. R$ 20 e R$ 10 (com nome na lista)

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