Trintona e com tudo em cima

Ele garante: não entende nada de moda, não abre uma revista da área e só vai a Nova York de olho nos bons restaurantes. David Azulay, o homem que ocupa cada centímetro dos lugares mais secretos do corpinho feminino com os biquínis da sua Blue Man, não quer se influenciar. Nada de tendências ou referências. Seu negócio é na areia, onde ele é rei há 30 anos. A Blue Man nasceu em 72 e, desde então, vem fazendo história na moda praia nacional. Foi a primeira a exportar, a pioneira no uso de ícones do folclore e da cultura em forma de estampas e responsável por guinadas mirabolantes na modelagem do biquínis - dos lacinhos aos sunkinis, do asa-delta ao fio dental. "Já contei essa história 200 vezes, mas vamos lá", diz Azulay, antes de revelar a trajetória de sua grife. Por mais que repita, o enredo da Blue Man não parece real. Nasceu, acreditem, de uma viagem lisérgica de um jovem rebelde que deixou sua terra natal - Belém, no Pará -, para se aventurar no caldeirão chamado Ipanema, no final dos anos 60. David chegou ao Rio com o irmão Simão. "Eu era inteligente demais para estudar, não gostava de lousa, lição", confessa. Em vez da faculdade, as experiências da moda O pai corretor de seguros, Nissin Azulay, queria que os filhos seguissem o caminho do tio, um médico famoso na cidade. Mas foi a veia da mãe bordadeira, Dona Sol, que falou mais alto. "Simão era um cara muito vaidoso, e a gente era duro. Para ele poder ter roupa bonita, inventava umas peças, minha mãe bordava, e ele vendia", conta. À princípio, David imaginou ser parceiro do irmão. Ele ficaria com a parte burocrática, Simão seria o estilista. "Mas a gente brigava rápido, por besteiras", diz. A sociedade não dava certo e sabia que se fosse fazer roupa, ia acabar copiando o irmão. "O biquíni tinha todos os atrativos: gastava pouco pano, não tinha zíper, botão, e não havia quem fizesse, era coisa de índio. Eu achava que o biquíni ia ser de jeans para sempre e a Blue Man seria a Levi´s da praia", revela David. O nome da marca é outra viagem. Veio de um sonho movido a LSD, combustível que embalava a juventude de Ipanema naqueles tempos. "O Man tirei da New Man, grife francesa que fazia umas calças de veludo maravilhosas, eu era apaixonado pela marca", conta. E ele delirou na paisagem de uma praia repleta de biquínis de jeans. "Abri a Blue Man no dia de Rosh Hashana (o dia do perdão judaico). Marquei com um cara que cortava os biquínis, era um freela, e ele fez as primeiras peças." Pela religião, David não poderia ter deixado a sinagoga naquele dia. "Deus é generoso", acredita. Rose di Primo, top model da época, ajudou a turbinar o biquíni jeans, que virou febre do verão de 73. Quando a estação acabou, David não sabia o que fazer. Daí chegou Pinha, um amigo, dizendo que tinha - Uau! - uma idéia - Uau! - maravilhosa - Uau!. Assim nasceu na linha com aplicações de cetim batizada de - adivinhem? - Uau!. No verão seguinte, outro marco: o biquíni com a estampa da bandeira americana. "Esse modelo internacionalizou a Blue Man", lembra o empresário. A marca foi uma das primeiras a exportar - além dela, só a Hering vendia camiseta para Alemanha. David se deixou levar pelos gringos, vendeu a alma e mudou sua modelagem. Até que Simão, sábio, o alertou. "Tu tem que vender para Ipanema que é melhor lugar do mundo. Ipanema já é grande demais para ti", foi a lição. Isso em 82. Em 83, a Blue Man trocou a exportação pelo varejo. "E não tem essa de vender chamise com pantalona. Faço biquíni, tenho 18 lojas - 14 próprias e 4 franquias." A Blue Man foi pioneira no uso de estampas tropicalistas, de saladas de frutas e pássaros. "Hoje, neguinho faz isso por marketing. A Blue Man fez isso por ideologia. Nossa intenção não era fazer para gringo ver, era por amor ao Brasil. A gente era ignorante, não sabia de moda, a gente só entendia o que via", diz David. Até hoje é assim. A coleção passada nasceu de um manto de maracatu, de onde saiu a estampa principal. A retrasada veio dos desenhos originais das garrafinhas dos artesãos de Canoa Quebrada. A deste ano veio de panos de prato vendidos nas ruas de Visconde de Mauá. "A gente sacou que o brasileiro sempre esteve anos à frente em termos de moda praia. É como samba, música, futebol. Vou ter moral de não fazer papoula, tulipa, nem o Big Ben, nem a Barbie", declara. David acredita que o glamour, na praia, atrapalha. "Biquíni tem de ter conforto , durabilidade. Quero ver meu produto de verdade, na areia. A Blue Man não nasceu para ser glamourosa e falida. Acho que Blue Man vende caro, mas faz coisa que não existe." Esse talvez seja o segredo de David para sustentar uma marca por tanto tempo. Ele escreveu a história da moda praia nas areias de Ipanema - e hoje tem capítulos espalhados por todo o litoral brasileiro.

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