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Trinta anos da morte de Cartola e seu eterno legado

De quase todos parceiros e amigos que conviveram com ele, a pergunta é a mesma: "Já faz tanto tempo assim? Meu Deus." A resposta é sim. Hoje, completam-se 30 anos da morte de Angenor de Oliveira, o mestre Cartola, e o espanto das pessoas próximas ao sambista é natural. A obra do fundador da Estação Primeira de Mangueira é tão atemporal que nem parece que ele se foi há três décadas.

Lucas Nobile, O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2010 | 00h00

Com um legado intangível não apenas para o samba, mas para a música brasileira em geral, ele teve temas regravados por uma lista infindável de artistas respeitados, como Elis Regina, Paulinho da Viola, Jair Rodrigues, Nelson Gonçalves, Zeca Pagodinho, Eumir Deodato, Joel Nascimento, Ney Matogrosso, Cazuza, Beth Carvalho, entre tantos outros.

Hoje ele tem muito mais reconhecimento do que em vida. Para se ter uma ideia, durante um período de sua carreira, sempre com seus típicos óculos escuros, praticamente anônimo, servia cafezinho no Ministério da Indústria e Comércio. Viveu um período de ostracismo no meio da década de 70, até voltar à tona com um sucesso arrebatador. "Em 74, ele estava sumido, muita gente pensava que ele tinha morrido. Eu fui até o morro da Mangueira, na casa dele, e perguntei se tinha músicas inéditas que eu queria gravar. Ele me mostrou inéditas como As Rosas Não Falam, O Mundo É Um Moinho e Corra e Olha o Céu. Eu gravei e logo depois saiu o disco dele com esses sucessos. Tivemos uma relação de pai e filha. O Cartola dizia que eu era a melhor intérprete das músicas dele", lembra Beth Carvalho.

 

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Outro a ter uma convivência estreita com o sambista, "de padrinho e afilhado", foi o poeta, compositor e produtor Hermínio Bello de Carvalho. "Eu o conheci em 1962 e vi o Zicartola nascer. Era uma tentativa de amigos e admiradores de Carola e Zica de fazê-los sair da pobreza em que viviam. Minha amizade com o casal se estreitou, e fui convidado para ser o padrinho de casamento dos dois. Eu fui um ouvinte privilegiado de algumas inéditas feitas por ele, como Acontece, Autonomia, As Rosas Não Falam e O Mundo É Um Moinho", lembra o parceiro de Cartola e Carlos Cachaça na antológica Alvorada.

"Quando ele morreu, Zica fez chegar às minhas mãos o "anel de sambista" que Cartola sempre usava e deixou com a instrução de que me fosse entregue. Hoje está, de empréstimo, na sede do Centro Cultural Cartola", recorda Hermínio.

Aliás, foi ele quem levou Paulinho da Viola ao bar e o apresentou a Cartola, em 1964. "Certa vez, em um programa de televisão, perguntaram a ele quem poderia ser seu sucessor. Ele disse que era eu. Para mim, foi uma honraria, não estou à altura de ser sucessor do Cartola. É voz corrente que ele era uma pessoa especial, com toda a obra que deixou, com muito lirismo e poesia. Eu agradeço muito ao Cartola por todo apoio, generosidade e incentivo que me deu", diz Paulinho da Viola.

O círculo de amizades não parou por ali e foi também no Zicartola que Paulinho conheceu Elton Medeiros, com quem faria belos sambas e que já era parceiro de Cartola em temas imortalizados até hoje, como O Sol Nascerá (A Sorrir) e Peito Vazio. "Eu me considero um aluno do Cartola. Já que a vida é feita de música, ele me ensinou a viver. Aprendi muito com ele, que deixou como legado o exemplo de como se construir uma música brasileira de qualidade. Isso tudo o transformou em um imortal do samba", diz Elton Medeiros.

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