Trinta anos

Agora talvez me levem mais a sério no doutorado. Ou na reunião de condomínio

Ruth Manus, O Estado de S.Paulo

03 Junho 2018 | 02h00

Não, eu não estou pronta para completar trinta anos. Sim, é hoje, neste domingo, às 9h13 da manhã. Trinta anos, gente, trin-ta. Não que eu ache que ter trinta é ser velho. Trinta é ótimo. Para os outros. Para mim, trinta é um número assustadoramente grande. Não estou pronta porque na minha cabeça ainda tenho algo em torno dos dezenove. Ainda gosto de farinha láctea, ainda preciso da opinião da minha mãe para quase tudo, ainda tenho a mania persistente de passar no McDonald’s em horários estapafúrdios. Não dá para ter trinta ainda.

Daqui exatamente uma semana, é a vez da miúda. Minha enteada completa seus oito anos, sob meus protestos. Também acho que ela não está pronta para esses anos todos. Vi a última prova de matemática que aplicaram na escola e pensei, ‘gente, ela ainda é tão pequena’. Sei que oito não é muito, mas acho muito para ela. Ela gosta do pandinha de pelúcia na cama, ela fala ógurte em vez de iogurte e dá a mão pra ver televisão. Está tão bom assim.

Aí depois vem julho. E minha sobrinha mais velha - pausa dramática - completa catorze anos de vida. Não, não, não, não. Não me interessa se é catorze ou quatorze. Para mim, ela vai fazer nove. Só nove, nem um ano a mais. Essa história de ela já estar quase da minha altura e usar roupas que eu usaria está completamente equivocada. Até ontem ela assistia a Charlie e Lola e Backyardigans, o que foi que houve, que eu não percebi?

A mais nova, no dia seguinte faz três anos. Nunca autorizei minha irmã a tirar as fraldas dela. Mas ela foi lá e tirou, só usa para dormir. Outro dia, no início da noite, ela correu angustiada pra mim e perguntou “Didi, eu tô de falda ou de cocinha?”. Se estivesse de calcinha, sabia que tinha que segurar o xixi até o banheiro, se estivesse de fralda, podia relaxar. Gente. Gente. Gente. Coitadinha. Ela não está pronta para fazer três anos. Deixem ela com dois.

Depois vem o sobrinho caçula, em setembro. Um ano? Como assim? Ele é só um bebê gorducho que sorri ininterruptamente. Não faz mais nada ainda. Nem sentar ele senta. Tem um cabeção tão lindo quanto pesado, onde moram aqueles olhos azuis adoráveis, que pesa para o lado e faz com que ele não tenha grande firmeza no tronco. É óbvio que ele não pode fazer um ano em setembro, isso está fora de questão.

Setembro também é o mês da minha mãe. Sessenta e o quê? Nove? Não, você só pode estar de brincadeira comigo. Olhe pra ela. Toda linda, ativa, bem disposta. Vocês estão enganados, ela vai fazer cinquenta. Corrijam isso no registro dela, por favor. Ela nasceu em 1949, mas completa cinquenta anos em 2018, combinado? Assim como a dona Rita, em novembro, não completará noventa. Nada disso, oitenta está mais do que bom.

Admito que não estou lidando muito bem com o tempo. E que, se dependesse de mim, as crianças seriam infantilizadas para sempre, assim como minha mãe estaria proibida de usar as vagas preferenciais dos estacionamentos. E é um direito dela. Assim como é direito da Luísa ter um bumbum que não esteja abafado por aquelas fraldas de plástico horrorosas.

Essa missão de aceitar o correr do tempo não é lá muito fácil. Não só não me julgo pronta para os trinta, como não me julgo pronta para ser tia de adolescente, nem madrasta de criança que já tem prova de geometria. Não me sinto pronta para ter uma mãe beirando os setenta, nem para ver minha avó entrar na década que antecede um século. Será que alguém se sente pronto?

Mas, sim, talvez os trinta me tragam boas prerrogativas. Talvez me levem mais a sério no doutorado. Ou na reunião de condomínio. Talvez eu já possa usufruir das noites de sábado no sofá da sala sem me achar uma perdedora, vivendo aquele prazer genuíno do ócio. Enfim, talvez eu me convença a abrir os braços e abraçar essa década que se inicia.

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