Eduardo Nicolau/AE-24/4/2003
Eduardo Nicolau/AE-24/4/2003

Trilogia sagrada

Como foi que apenas três discos ergueram os pilares da música brasileira mais respeitada no exterior

Zuza Homem de Mello / pesquisador, O Estado de S.Paulo

28 Maio 2011 | 00h00

Quando foi lançado, no primeiro trimestre de 1959, o LP Chega de Saudade de João Gilberto provocou a mais completa reviravolta na história da música popular brasileira. João, que faz 80 anos dia 10 de junho, já era o que havia de mais espantoso com dois discos singles (de 78 rotações) gravados no ano anterior. As quatro novas canções haviam virado a cabeça de jovens inclinados, mas ainda não decididos, a seguir a carreira de músico. Eram Chega de Saudade, Bim Bom, Desafinado e Ho-ba-la-lá, e entre os jovens estavam Gilberto Gil, Caetano Veloso, Chico Buarque, Milton Nascimento, Edu Lobo, Francis Hime e outros mais que formariam a nata de compositores. A música de João os fez determinados. Nessas gravações, os dogmas de uma nova forma de canção brasileira estavam explícitos em elementos fundamentais, o ritmo, a harmonia, a batida de violão e a maneira de cantar.  

 

 

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O primeiro vinil de João revelou que a nova forma poderia ser instaurada para muito além das quatro canções revolucionárias. João demonstrou que sambas do passado entravam na dança de sua revolução musical. Os dois sambas de Ary Barroso, Morena Boca de Ouro e É Luxo Só, o de Dorival Caymmi Rosa Morena e até um clássico de seu ídolo Orlando Silva, Aos Pés da Cruz, de Marino Pinto e Zé Gonçalves, também passavam a ser uma coisa nova na concepção de João Gilberto.

Era uma outra bossa que nem Ary nem Caymmi nem Orlando sonhavam poder existir. João Gilberto demonstrou que era uma nova bossa. Ficou nítido que a bossa nova, expressão aplicada por Tom Jobim para defini-lo no texto da contracapa, não era um gênero. Era uma forma leve extensível a qualquer canção brasileira.

Esse primeiro LP de João Gilberto dura 22 minutos e 35 segundos definindo outra marca inédita, a economia, a depuração do supérfluo. Na condução dos arranjos de Tom Jobim o guia era o violão de João Gilberto. Espremendo a essência de cada canção, João concentrava a fluidez rítmica e melódica; penetrando na sua construção original, introduzia com Tom uma harmonia de acordes invertidos executados em bloco. Sem perda do caráter brasileiro, aquela música alcançava um contexto universal.

A contracapa do segundo LP, gravado em pouco mais de uma semana no primeiro semestre de 1960, trazia uma novidade abaixo da apresentação, também de Tom Jobim: o texto das 12 canções propiciando que se ouvisse cada uma delas lendo a sua letra, o que passou a ser característica de discos brasileiros. O repertório reunia canções essenciais da bossa nova, uma obra-prima de Carlinhos Lyra, Se É Tarde me Perdoa, outra de Tom, Corcovado, uma terceira de Tom e Newton Mendonça, Meditação, com o verso que deu título ao disco, "o amor, o sorriso e a flor", e o estigma do bom humor na bossa nova, O Pato do ilustre desconhecido Jayme Silva, simbolizando a ligação de João com antigos conjuntos vocais. Na primeira faixa estava o mais convincente modelo de integração texto/melodia da música brasileira, o Samba de Uma Nota Só, de Tom Jobim e Newton Mendonça, possivelmente a síntese da bossa nova nos fundamentais elementos de letra, melodia, ritmo e harmonia. A interpretação de João é direta e enxuta com um final seco após 1 minuto e 35 segundos de perfeição.

Ao contrário do segundo, o terceiro LP foi concluído a duras penas após 5 meses e em duas fases, a primeira com a participação do conjunto do organista Walter Wanderley, um músico excepcional, e a segunda com orquestra sob regência de Tom Jobim que também fez os arranjos. Sambas do passado de Caymmi, Geraldo Pereira e da dupla Bide & Marçal eram de tal forma alterados na rítmica e na harmonia que não soavam como outra versão mas como um outro samba. Mais uma vez João introduz elementos de elasticidade e flexibilidade através de rubatos ou suspensões, apressando ou encurtando frases, ou ainda colocando versos fora do lugar para depois aguardar com o violão e seguirem juntos novamente. Com sua voz cálida incorpora novos clássicos da bossa nova, Coisa Mais linda, O Amor em Paz e Insensatez. Mas o maior acontecimento desse disco, que tem seu nome como título, foi a apresentação das primeiras gravações de João com violão e nada mais, formando uma entidade que seria a tônica de seus recitais, o que há de mais sublime na música brasileira ainda hoje. Não é um cantor se acompanhando ao violão, são os dois juntos, é um novo conceito representado por dois timbres diferentes, o das cordas vocais e o das cordas do violão formando um terceiro timbre, o de João Gilberto.

Caso não tivesse gravado nada mais, bastaria essa trilogia para que João tivesse completado sua obra. Os 3 discos, que estão fora do mercado se mantêm tão atuais como se gravados hoje, às vésperas de seus 80 anos.

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