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Trilogia do diretor Michelangelo Antonioni é lançada em DVD

'Trilogia da incomunicabilidade' é um dos marcos do cinema mundial na década de 1960

LUIZ CARLOS MERTEN - O Estado de S.Paulo,

07 de agosto de 2012 | 03h11

Jack Nicholson havia feito O Passageiro - Profissão: Repórter com Michelangelo Antonioni. Escolhido pela Academia de Hollywood para outorgar ao grande diretor italiano o Oscar de carreira que recebeu em 1995, Nicholson ressaltou a ironia. O homem que havia feito do silêncio uma ferramenta de sua arte estava privado da palavra e dos movimentos por um acidente cardiovascular. Antonioni recebeu o prêmio amparado numa bengala. A plateia, respeitosa, aplaudiu-o de pé.

O húngaro Istvan Gaal, que cursou o Centro Experimental em Roma, teve o privilégio de assistir a algumas master classes de Antonioni, nos anos 1960. Ele escreveu um texto sobre a experiência, publicado numa revista de Budapeste, em 1992, e resgatado pela revista francesa Positif, em abril deste ano. Antonioni e Gaal já morreram. O diretor húngaro lança perguntas - Antonioni terá sido o documentarista intransigente do neorrealismo? O artista que fez a ligação entre o movimento que irrompeu na Itália, no pós-guerra, e a nouvelle vague francesa? E ele afirma - com Antonioni, e Federico Fellini, o cinema começou a falar na primeira pessoa.

Tudo isso vale lembrar no momento em que a Versátil lança uma caixa especial. Sob o rótulo de Trilogia da Incomunicabilidade, reúne os três filmes que Antonioni realizou entre 1960 e 62 - A Aventura, A Noite e O Eclipse. Os três já haviam sido lançados separadamente, mas, agora, o lançamento em bloco permite ao cinéfilo (re)avaliar uma das obras mais importantes do cinema. Antonioni ainda fez filmes ousados, polêmicos - e premiados. Ganhou a Palma de Ouro por Blow-Up - Depois Daquele Beijo, em 1967. A Aventura e O Eclipse concorreram em Cannes e perderam - o segundo, para O Pagador de Promessas, de Anselmo Duarte. A Noite foi premiado em Berlim.

A Aventura abre-se com a ruptura de Sandro e Ana, personagens de Gabriele Ferzetti e Lea Massari. Integram grupo que realiza cruzeiro no Mediterrâneo. Chegam a uma ilha, Ana desaparece. Sandro a procura com a amiga Claudia, interpretada por Monica Vitti. Sandro e Ana são definidos desde o começo como instáveis, emocionalmente. Claudia é mais estável. Liga-se a Sandro. Antonioni não fornece explicação para o sumiço de Ana. Na época, a falta de conclusão era uma temeridade. Ele ironizou. "Me disseram que ela se matou, mas não creio."

É como investigar um crime sem corpo - o que o fotógrafo David Hemmings faz em Blow-Up. A explicação talvez venha no desfecho de O Eclipse, quando os personagens somem e fica apenas a arquitetura da cidade. Ambos os filmes tratam da crise do casal. Também é o tema de A Noite, e o casal, formado por Jeanne Moreau e Marcello Mastroianni, deambula por Milão e, depois, na festa organizada por Valentina (Monica Vitti). A Aventura e A Noite terminam na aurora, e a segunda transmite uma esperança - a carta de amor que Lídia (Jeanne) lê para o marido. O Eclipse encerra-se num anoitecer. Passaram-se 50 anos, o mundo vive hoje um surto de comunicação nas redes sociais. A solidão e a incomunicabilidade permanecem. Estão ligados à crise dos sentimentos, ao vazio existencial que Antonioni dissecou como ninguém.

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