"Trilogia Bíblica" volta aos palcos

Uma indefinição ainda acompanha a estréia de uma das peças da trilogia bíblica do Teatro da Vertigem, na celebração de seus dez anos de existência: onde apresentar Paraíso Perdido, a primeira peça criada pelo grupo (e última na mostra programada), uma vez que a Cúria Metropolitana proibiu a reencenação do espetáculo na Igreja de Santa Ifigênia, onde estreou, sob polêmicas, em 1992. As outras duas, Apocalipse 1,11, fica em cartaz de hoje a 26 de janeiro, no Presídio do Hipódromo, no Brás, onde estreou em 1999, e O Livro de Jó reestréia no dia 29, no mesmo hospital Umberto Primo, antigo Hospital Matarazzo, onde fez carreira a partir de 1995.Tanto Apocalipse quanto Jó voltam à cena com modificações que não alteram as concepções originais. No primeiro caso, a peça sofreu "algumas alterações espaciais", segundo o diretor, como a saída do público por uma entrada lateral e não para a rua, como na versão original. Apocalipse será apresentada gratuitamente. Em O Livro de Jó, que conta com dramaturgia de Luís Alberto de Abreu, o percurso dos atores e do público mantém-se exatamente o mesmo pelo hospital desativado. O que muda é o ator Roberto Audio (Jó) no lugar de Matheus Nachtergaele. "Claro que perdi o ator talentoso e o parceiro de trabalho (Nachtergaele), mas ganhei um outro grande parceiro", comenta Araújo, bastante animado com "a entrega e generosidade de Audio".O Teatro da Vertigem marcou indelevelmente a cena dos anos 90, proporcionando como engrenagem da ação teatral uma discussão vigorosa entre o sagrado e o profano, sempre em espaços arquitetônicos que nada tinham a ver com o palco italiano. O processo de criação do grupo também é uma história à parte: resultou num método de trabalho chamado colaborativo, baseado na soma sinérgica das várias autorias (autor, diretor, atores, cenógrafo etc.).Para o teatrólogo Aimar Labaki, no livro que reconta e analisa a trajetória do Vertigem, trata-se do "mais importante" grupo de teatro que surgiu no Brasil dos anos 90. "À parte a qualidade excepcional de suas três montagens, é o mais sintonizado com os temas e procedimentos do teatro contemporâneo e o que mais impacto causa nas platéias nacionais ou estrangeiras", sublinha Labaki.Paraíso Perdido baseia-se no poema de John Milton, com dramaturgia de Sérgio Carvalho. A peça que coloca na berlinda a contenda fé x descrença, com seus personagens dubitosos e anjos caídos, causou a ira de uma ala de fiéis, que na época fez manifestações à porta da Igreja de Santa Ifigênia. Em O Livro de Jó, a discussão sobre os limites da fé era representada pela figura emblemática de Jó. A belíssima dramaturgia era assinada por Luís Alberto de Abreu. Já em Apocalipse 1,11, com a colaboração dramatúrgica de Fernando Bonassi, um anjo anuncia o fim dos tempos a João (Vanderley Bernardino), morador de uma metrópole decadente, que peregrina testemunhando os nefastos acontecimentos. O processo de criação das peças do Teatro da Vertigem é tema do projeto Dramaturgias, mês de dezembro, que ocorre nesta sexta-feira, com a presença de Antônio Araújo e dos autores.A importância da volta dos três espetáculos é inquestionável. Juntos, oferecem um panorama temático e estrutural do grupo. "É importante poder olhar criticamente para trás e fazer um balanço do que já se produziu", avalia o diretor, que afirma não saber ainda qual será o próximo passo do Vertigem. Concretamente, porém, o próximo passo será na direção da sede recém-conquistada, a Casa 1, no centro velho de São Paulo, graças aos benefícios da Lei de Fomento ao Teatro e à patrocinadora Brasil Telecom. "Será um espaço de ensaios, oficinas e formação de grupos de estudos", enumera Araújo.Ainda às voltas com uma solução para a retomada de Paraíso Perdido, Antônio Araújo se diz "desgastado e triste". Na carta recebida em julho último do cardeal Cláudio Hummes, consta: "...igreja não é construída para encenar espetáculos teatrais e não há nenhuma razão grave para que eu abra uma exceção neste caso." Araújo está contatando dirigentes de outras religiões, mas se isso não der certo, ele garante que o espetáculo será apresentado na capelinha do hospital Umberto Primo. A idéia é reestreá-la em fevereiro de 2003.Apocalipse 1,11. Dramaturgia Fernando Bonassi. Direção Antonio Araújo. Duração: 2 horas. De terça a quinta, às 21 horas. Grátis (retirar convites com 1 hora de antecedência). Presídio do Hipódromo. Rua do Hipódromo, 600, tel. 283-1027 e 9114-3410. Até 19/12. Reestréia hoje.O Livro de Jó. Criação Teatro da Vertigem. Dramaturgia Luis Alberto de Abreu. Concepção e direção Antônio Araújo. Duração: 75 minutos. Sexta e sábado, às 21 horas; domingo, às 20 horas. R$ 25,00 e R$ 30,00. Hospital Umberto Primo. Alameda Rio Claro, 190, tel. 283-1027 e 9114-3410. Até 22/12. Reestréia sexta.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.