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Luis Fernando Verissimo
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Trilhão

“Trilhão” era uma palavra pouco usada, antigamente. Uma pessoa podia nascer e morrer sem jamais ouvir, o que dirá pronunciar, a palavra “trilhão”, a não ser em vagas especulações sobre as estrelas do universo. Um “trilhão ficava um pouco antes do infinito. Dizia-se “trilhão” em vez e se dizer “incalculável” ou “sei lá”.

Luis Fernando Verissimo, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2016 | 02h00

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Não era um número, era uma generalização. Se um dia você, por distração, dissesse “trilhão” a palavra subiria como um balão desamarrado, não daria tempo nem para ver a sua cor. E hoje não passa um dia sem que se ouça falar em “trilhões”. O “trilhão” vai, aos poucos, se tonando nosso íntimo. É o mais novo personagem do nosso cotidiano, e das manchetes dos nossos jornais.

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Quantos zeros tem um “trilhão? Doze, acertei? Se os zeros fossem pneus, o “trilhão” seria uma jamanta daquelas de carregar turbina para usina atômica. Felizmente, deve vir aí uma nova moeda com menos zeros e mais respeito para acomodar a corrupção nacional. Senão chegaríamos à desmoralização completa.

– Tem troco pra um bi?

– Serve uma bala?

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Desconfio que o que apressará a reforma será a iminência do “quatrilhão”. Como palavra, ”quatrilhão” é até mais feia do que “seborreia”. Depois de dizer “quatrilhão”, você deve pular para trás, senão ela cai e esmaga o seu pé.

 

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