Trienal põe Japão no circuito da arte contemporânea

Em cartaz até dia 11 de novembro, a primeira Trienal de Yokohama (Japão) foi inaugurada oficialmente no dia 2 de setembro sob uma série de interrogações. Valeria a pena o esforço japonês de promover sua primeira grande mostra periódica de arte contemporânea? O circuito internacional já não estaria excessivamente povoado de bienais, trienais e quadrienais? Entre a pioneira Bienal de Veneza e a recentíssima iniciativa nipônica, há mais de 30 desses eventos espalhados em torno do mundo, de Istambul (Turquia) a Berlim (Alemanha) e de Havana (Cuba) a São Paulo.Diante desse cenário, como posicionar a Trienal de Yokohama? A grande mostra, seja por suas escolhas, seja pela estratégia que definiu seu foco, está provando, nos diversos espaços que ocupa na cidade para exibir 109 artistas de 38 países (um terço deles asiáticos), que é uma alternativa com chances reais de se consolidar como a melhor interlocução entre a arte oriental e a ocidental.Para administrá-la, foi formado um numeroso comitê organizador internacional que contou com a participação de 53 pessoas, entre críticos, professores universitários e nomes de relevo na direção ou curadoria de instituições culturais e museus públicos e privados, no Japão ou em outros países. Algo bem diverso, logo se vê, do paroquial e esclerosado Conselho Administrativo da Bienal de São Paulo, de maioria alheia ao universo artístico, foco de crises e da fratura entre a instituição e a comunidade que deveria representar.Participaram do comitê da trienal japonesa, entre outros, os curadores Jean-Hubert Martin (França), Dan Cameron (EUA) e Paulo Herkenhoff (Brasil). A curadoria da primeira Trienal de Yokohama ficou a cargo de um quarteto de críticos japoneses: Shinji Kohmoto (curador do Museu de Arte Moderna de Kyoto), Nobuo Nakamura (autor do livro Young Boy´s Art, sobre a nova geração de artistas japoneses), Akira Tatehata (ex-comissário do Japão na Bienal de Veneza) e do curador independente Fumio Nanjo, o mais conhecido no Ocidente e comissário de várias mostras internacionais, inclusive da próxima Bienal de São Paulo.Para não ser supérflua, a Trienal de Yokohama soube tirar partido, tanto prático quanto simbólico, de sua localização estratégica. O porto de Yokohama foi o primeiro a ser aberto ao livre comércio do Japão com o Ocidente, há apenas 140 anos. O que dá uma medida do intenso diálogo estabelecido desde então com as mais diversas nações e que produziu no país, em menos de um século e meio, um dos pólos mais destacados do comércio e da cultura globalizada.O intercâmbio comercial, vale lembrar, era bastante restrito desde a segunda metade da Idade Média, seja pela atitude defensiva em relação à invasão mongol ou o avanço do cristianismo, seja pelas guerras internas entre os xoguns. O período entre 1858 a 1867 delimita o fim do xogunato, o estabelecimento de um Estado moderno no Japão e a assinatura de tratados comerciais com as principais potências ocidentais. Com o subtítulo de "Mega-Wave: Towards a New Synthesis" (Megaonda: a caminho de uma nova síntese), a Trienal de Yokohama acertou ao fixar-se especialmente na análise e contextualização da produção artística asiática. Para dar consistência ao conjunto, não faltaram obras importantes de grandes astros ocidentais, como Marina Abramovic (Iugoslávia), Pipilotti Rist (Suíça), Felix Gonzalez-Torres (Cuba), Gabriel Orozco (México), Olafur Eliasson (Dinamarca), Pierre Huyghe (França), Krzysztof Wodiczko (Polônia/EUA), Stelarc (Austrália) e William Kentridge (África do Sul). O Brasil está representado apenas pelo multimeios Eduardo Kac, embora pudesse ter presença mais numerosa por sua importante produção visual.Os artistas asiáticos formam o núcleo mais interessante do conjunto, pelo frescor e pela hibridização de conceitos e formas que ultrapassam o regional ou o folclórico para inscrever-se em profundidade no universal. A maioria deles, de origem multiétnica, cria obras tocadas pelo nomadismo, pela formação ou vivência no Ocidente.Como observa o curador Tatehata, "a Ásia não tem uma cultura uniforme, ela é antes de mais nada área de passagem de culturas, de diálogo entre Oriente e Ocidente". Essa característica foi frisada, observa ele, "na escolha de artistas asiáticos que assimilaram outras culturas e trabalham diversas camadas de identidade". Basta examinar alguns nomes do elenco de artistas para observar que esse foco curatorial resultou em escolhas extremamente representativas.A começar pelas duas matriarcas da arte japonesa contemporânea: Yoko Ono e Yayoi Kusama. Ono, que a mídia costuma erroneamente identificar apenas como a viúva de John Lennon, tem larga trajetória artística. Uma das pioneiras da arte conceitual, foi ligada ao Grupo Fluxus. Ela levou a Yokohama a poética obra Freight Train (Trem de Carga), vagão crivado de balas e varado de luz, porejando claridade desde seu interior. Um bicho-máquina ferido na escuridão.Kusama, por sua vez, é a referência maior da contribuição do Japão ao efervescente cenário nova-iorquino dos anos 60. Esse é o período em que ela começa a realizar suas instalações e performances feministas e libertárias, a criar esculturas fálicas de tecido estofado, obsessivas padronagens de bolinhas e vertiginosos ambientes de espelhos.Sintomaticamente, o percurso na principal sede da Trienal, no enorme Pacifico Yokohama Exhibition Hall, começa com Endless Narcisus Show, sedutora instalação de paredes espelhadas e bolas prateadas feita por Kusama. Entre os destaques orientais jovens há os superastros chineses Cai Guo-Qiang e Zhang Huan (revelados na Bienal de Veneza de 1999) e seus conterrâneos Danwen Xing (com poética instalação em que captura sonhos em um baú de vidro transparente) e Yi Ding, com belas pinturas abstratas feitas de minúsculos e obsessivos fragmentos de cor. Cabe citar ainda o frescor experimental dos vídeos do coreano Kyung Ham (Coréia).O Japão comparece com vigor nas fotografias sociopsicológicas de Miwa Yanagi, nas fotoperformances de Tatsumi Orimoto, na videoprojeção mangá de Tabaimo e na obra da dupla Hisashi Muroi e Noboru Tsubaki, que fixou um gigantesco gafanhoto inflável na lateral externa de um prédio. Todas essas obras estabelecem um diálogo entre alta e baixa cultura, fulcro da produção visual nipônica atual. Uma obra, em especial, chama a atenção: a videoprojeção Memorial Project, filmada com câmeras subaquáticas pelo vietnamita Jun Nguyen-Hatsushia nos translúcidos mares do Vietnã. Uma cena surrealista, em que riquixás são pedalados ou empurrados por jovens nadadores sobre a areia do fundo do mar, em luta periodicamente interrompida para, em rápido impulso bordado de bolhas, buscar o ar na superfície. Uma bela metáfora sobre a cultura asiática, que precisa do oxigênio do exterior para prosseguir em seu difícil caminho de sintetizar visões de mundo. Para seguir adiante na geografia atual, em que distâncias perdem sentido e tudo interage.A Trienal de Yokohama é parte desse oxigênio e pode se constituir em aprofundada exibição da arte asiática atual, seja aquela produzida nos países de origem dos artistas, seja a realizada nos países que eles escolheram para desenvolver seus trabalhos. São raras as oportunidades, no cenário das grandes mostras periódicas, de se observar presença significativa da arte oriental. A última delas ocorreu graças ao interesse pessoal do curador Harald Szeemann, que apresentou ao mundo, na Bienal de Veneza de 1999, um vigoroso elenco de jovens artistas chineses. Yokohama pode sistematizar e ampliar esse olhar, em mergulho que tem potência para renovar a atmosfera artística internacional. Mais informações no web site www.art-tech.jp/yt2001/en/index.html Viagem feita a convite da Fundação Japão

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