Tributos ao bardo da causa negra

Novos títulos jogam luz sobre a trajetória do literato Luiz Gama

Lilia Moritz Schwarcz, O Estado de S.Paulo

24 Julho 2010 | 00h00

No início do século 20 o escritor Lima Barreto deixaria em seus Diários passagens fortes acerca da nossa sociedade e do racismo aqui praticado: "É duro não ser branco no Brasil A capacidade mental dos negros é discutida a priori, e a dos brancos, a posteriori." Espécie de termômetro de um tempo que acenava com mudanças - dentre elas a Abolição da Escravidão e a Proclamação da República -, o escritor negro era também testemunha de como certas coisas mudam e outras teimam em permanecer; a discriminação racial, por exemplo. Lima denunciava a existência de um preconceito renitente - que dividia a humanidade por cores e etnias -, a despeito dos tantos prognósticos que prometiam a civilização. Além do mais, numa terra em que se insiste em não ser negro, em que o enriquecimento "embranquece", e em que o sucesso muda a cor dos envolvidos, o escritor teimou em se caracterizar e fazer literatura negra.

Poucos literatos definiram-se como tal e, nessa galeria limitada, encontra-se Luiz Gama, também conhecido como Orfeu da Carapinha, apelido que ironicamente adotou. Advogado, poeta, jornalista, Gama ria das negociações que por aqui se estabelecem em torno da cor. Certa vez, quando indagado sobre sua cor, assim reagiu: "Que cor o Antonio Carlos registrou? Branca? Pois se aquilo é branco ponha branco para mim também." Em um de seus mais famosos poemas, ao final declama: "Teu avô que era de cor latente, teve um neto mulato mui pedante! Irrita-se o fidalgo qual demente. E não pode negar ser meu parente!"

De forma irreverente, Gama brincou com essa mania nacional de se fazer passar por mais claro. Sobre a origem do pai (supostamente português), dizia não jurar que era realmente branco "porque tais afirmativas neste país constituem grave perigo perante a verdade, no que concerne à melindrosa presunção das cores humanas".

Se a literatura é universal e não tem pátria, nem por isso a experiência pessoal tem que se submeter a uma operação de ocultamento. E esse é o caso de Luiz Gama, que, ainda nos tempos do Segundo Reinado, se transformaria em voz forte ao descaracterizar as mazelas políticas que prometiam o final do tráfico. Enquanto Lima Barreto combateu a República, Luiz Gama criticou o Império, e transformou-se em grande abolicionista. Em comum, é possível dizer que ambos foram marcados pelas agruras que a condição social, histórica e a etnia imprimiram em seus destinos. Lima Barreto queria "ser doutor", mas morreu pobre, ébrio, depois de internado várias vezes em clínicas para "alienados". Luiz Gama, filho de Luiza Mahin - ativista negra atuante na Sabinada (1837) e na revolta dos Malês, que ocorreu na cidade de Salvador em 1835 -, foi vendido ainda menino como escravo, por seu pai; um fidalgo endividado. Em comum, ainda, os dois autores transformaram um destino trágico numa espécie de agência, já que reinventaram a própria condição, transformando-se em bardos da causa negra, que nem sequer parecia existir. Denunciaram o preconceito, injustiças sociais e favorecimentos de toda sorte.

Escritores como esses em geral não deixam lastros. Lima Barreto coletou cuidadosamente sua memória. Já Luiz Gama legou uma espécie de carta testamento, escrita para o amigo Lúcio de Mendonça dois anos antes de morrer. Até hoje considerada documento fundamental, a missiva foi objeto de todo tipo de uso: inspirou romances, artigos e teses. Mas documentos, mesmo, são poucos.

É, pois, motivo de grande alegria a publicação de dois livros dedicados a Luiz Gama. O Advogado dos Escravos, escrito por Nelson Câmara, traz novidades sobretudo quando recupera e anexa processos em que Gama se envolveu, e que levaram à libertação de mais de 1.000 escravos. Tendo por base a própria legislação vigente, o ativista fez cumprir a medida que ratificava a proibição do tráfico e apoiou-se no direito do habeas corpus. Na verdade, Gama não completou o curso na Faculdade de Direito no Largo de São Francisco e atuou como advogado provisionado. Ou seja, foi seu conhecimento do ofício que fez dele um "rábula"; termo que designa o profissional que advoga sem diploma.

O outro livro - Luiz Gama - faz parte da Coleção Retratos do Brasil Negro e é de autoria de Luiz Carlos Santos. Apesar de seu tamanho menor, o texto recupera a vida de Gama, assim como acentua o perfil ativista de seu biografado. A partir de uma frase da carta - "até os 10 anos fui criança, dos 10 aos 18 fui soldado" - mostra como o garoto transformou-se em "guerreiro", assim como retoma de maneira mais abrangente o contexto e os limites de época. Interessante destacar como, além de negro, Gama contava com a "infelicidade" de ser baiano, numa época em que essa procedência era sinônimo de rebelião.

Os dois biógrafos se baseiam na mesma fonte: uma espécie de autobiografia autorizada. No entanto, enquanto Luiz Carlos relativiza o registro, Nelson Câmara o toma mais literalmente. Ambos, porém, mostram-se (até por motivos justos) totalmente mobilizados pelo autor que elegem. Não que o "Orfeu da Carapinha" não mereça, mas é sempre prudente economizar nos adjetivos e insistir nos substantivos. Há muito que pesquisar na vida desse personagem e não parece bom modelo isolá-lo em seu momento, ou encontrar nele um militante nos termos de hoje. O perigo do anacronismo sempre ameaça a nós historiadores pois, por mais que desejemos, os documentos insistem em não comprovar o que queremos, ainda mais nesse caso em que carecemos de fontes confiáveis.

O fato é que essa vida merece uma e muitas biografias. Analfabeto até os 17 anos, maçom numa época em que pertencer a esses grupos era sinal de contestação, advogado sem diploma mas por merecimento, jornalista crítico e poeta satírico, Luiz Gama deixou obra pequena mas de impacto. Em seu único livro, Primeiras Trovas Burlescas de Getulino, lançado em 1859, está presente toda a verve do ex-escravo que não esquece ou omite sua origem; ou melhor, a evidencia. Em Quem Sou Eu?, revela a ambivalência da sua condição: "Amo o pobre, deixo rico, vivo como o tico-tico." Na obra, escancara a discriminação existente no País, que se esconde por trás de uma pletora de nomes, todos desabonadores: mulato, preto, bode, cabra. Mas o melhor é deixar Gama destilar seu estilo: "Se negro sou, ou sou bode, pouco importa. O que isto pode? Bodes há de toda a casta, pois que a espécie é muito vasta (...) Bodes negros, bodes brancos, e sejamos todos francos, bodes ricos, bodes pobres." Diante dessa "bodarrada", desses termos que ora disfarçam, ora descaracterizam, Luiz Gama se dizia apenas negro: "Minha cor não nega."

LILIA MORITZ SCHWARCZ É PROFESSORA TITULAR DO DEPARTAMENTO DE ANTROPOLOGIA DA USP E AUTORA, ENTRE OUTROS, DE O SOL DO BRASIL: NICOLAS-ANTOINE TAUNAY E AS DESVENTURAS DOS ARTISTAS FRANCESES NA CORTE DE D. JOÃO (COMPANHIA DAS LETRAS)N

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