Tributo ao mestre

O crítico e autor Paulo Emilio Salles Gomes é lembrado nos 34 anos de sua morte

Lygia Fagundes Telles, O Estado de S.Paulo

04 Setembro 2011 | 00h00

ESPECIAL PARA O ESTADO

Paulo Emílio Salles Gomes (1916-1977), o mais internacional e o mais nacional cineasta do Brasil, foi o fundador da Cinemateca Brasileira em São Paulo. É preciso, sim, repetir, foi ele o fundador deste admirável museu vivo do cinema. Difícil a biografia de um ser humano de obra e vida tão densa e tão intensa, a vocação e a paixão.

Bacharel em Filosofia pela Faculdade de Filosofia da Universidade de São Paulo e doutor pela Escola de Comunicações e Artes, juntamente com os amigos Antonio Candido, Décio de Almeida Prado, Lourival Gomes Machado e Ruy Coelho - a jovem e luminosa elite paulistana -, foi um dos fundadores da famosa Revista Clima.

Considerado um subversivo pela ditadura militar, Paulo Emílio foi preso porque o destino natural de um subversivo numa ditadura é mesmo a prisão. Sim, ele foi preso mas fugiu numa fuga espetacular, por um túnel cavado nos subterrâneos do próprio presídio e que ia dar Deus sabe onde.

Tinha chegado a hora de emigrar e o país escolhido foi a França. Em Paris o nosso Paulo Emílio escreveu em francês o livro Jean Vigo (1905-1934), um cineasta romântico que morreu jovem e polêmico que a própria França já tinha esquecido. Os mistérios da criação, mas por que um intelectual do Terceiro Mundo, por que Paulo Emílio foi desencavar lá longe esse Jean Vigo e sobre ele escrever um denso e intenso livro que teve uma excelente crítica e ainda recebeu o famoso prêmio Armand Tallier, concedido ao melhor livro de cinema publicado na França, em 1958?

Sim, os mistérios da criação. Ainda em Paris o nosso Paulo Emílio trabalhou na Cinemathèque Française e assim ele ficou conhecendo em profundidade a função e o destino de um museu vivo de cinema.

Estava na hora de voltar para o Brasil e aqui plantar as suas sementes, sim, estava na hora de fundar com os amigos Francisco Luis de Almeida Salles e Rudá de Andrade (entre outros) a nossa Cinemateca Brasileira.

Paulo Emílio escreveu: "Prefiro os subdesenvolvidos filmes do nosso cinema aos melhores filmes do cinema estrangeiro". Oportuno lembrar outra frase que abre o livro Cinema: Trajetória no Subdesenvolvimento: "O Brasil se interessa pouco pelo seu próprio passado. Essa atitude saudável exprime a vontade de escapar a uma maldição de atraso e miséria que o brasileiro evita lembrar. Contudo, é este o país que o brasileiro deve amar com a fé e a esperança porque este é o seu país tão precisado desse amor".

Atraso e miséria, Paulo Emílio era amargo? Não, ele era bem-humorado e sabia rir gostosamente dos outros e também de si mesmo.

Ele dizia: "Existe a ficção que oculta e a ficção que desvenda". No seu romance Três Mulheres de Três PPPês, a ficção é desvendada e ao mesmo tempo fica oculta, enfim, aquelas ambiguidades secretas lá nas cavernas do mistério. Sobre esse romance, o crítico e ensaísta Roberto Schwarz disse: "É a melhor prosa brasileira desde Guimarães Rosa".

Sim, Paulo Emílio criou clubes de cinema, participou de congressos aqui e no exterior, lecionou em universidades e principalmente escreveu livros sobre cinema e, no fim da vida, lançou até um romance. Cinema e Literatura, olha aí, a vocação e a paixão.

Sobre Paulo Emílio, escreveu Antonio Candido: "Paulo Emílio sempre foi um estudioso de cinema, o maior crítico cinematográfico que já tivemos, o criador do movimento das cinematecas no Brasil, o autor de monografias clássicas sobre Jean Vigo e Humberto Mauro. A sua livre e extraordinária imaginação sempre aspirou a algo mais, porém só no fim da vida, aos 60 anos, escreveu os três contos longos do mencionado livro, que tratam de relações amorosas complicadas, com uma rara liberdade de escrita e concepção. No entanto, a sua modernidade serena e corrosiva se exprime numa prosa quase clássica. Translúcida e irônica, com certa libertinagem de tom que faz pensar em ficcionistas franceses do século 18". E prossegue Antonio Candido: "Paulo Emílio era um homem fabuloso, muito além dos superlativos. Morto, faz lembrar o verso de Mário de Andrade: um sol quebrado. A publicação dos seus escritos vai mostrar que Paulo Emílio foi um dos nossos ensaístas mais coerentes e profundos". Mais adiante, Antonio Candido acrescenta: "Porque falando sempre de cinema, por meio dele Paulo Emílio fala da arte, da sociedade e do homem - do homem do Brasil".

Escreveu François Truffaut, um dos maiores nomes da nouvelle vague do cinema: "Passou por minhas mãos o manuscrito do mais belo livro de cinema que já li".

"O brilho e a originalidade de Paulo Emílio vão, por muito tempo, nos surpreender", disse Carlos Augusto Calil.

Luiz Zanin Oricchio, no seu belo artigo sobre os 30 anos da morte de Glauber Rocha, citou Paulo Emílio Salles Gomes, como o maior ensaísta do cinema brasileiro e que se referia ao amigo Glauber Rocha como sendo "um profeta que não tem a obrigação de acertar, tem obrigação de profetizar, isto é, de movimentar ideias que, mesmo sem terem a precisão de um teorema, interferem na cultura, fazem as pessoas pensar, por adesão ou reação".

Meu filho, o cineasta Goffredo Telles Neto, escreveu: "Enfim, Paulo Emílio nos ensinou a tatear os olhos perplexos de nossos heróis de nitrato. Resistir ao impulso aflito de recobrir com palavras nossas tristes máscaras devastadas pela miséria e esquecimento. Ele nos iluminou nessa aventura de resgatar o sonho, o Nervo pulsando no fundo da Cena Muda".

Paulo Emílio foi casado com esta autora e juntos escrevemos o roteiro para cinema Capitu, inspirado no romance Dom Casmurro, de Machado de Assis.

Querem mais? Era um socialista que amava a música, o vinho tinto e os gatos.

Obra

Os livros de Paulo Emílio Salles Gomes, que morreu em 9 de setembro de 1977, aos 60 anos, foram relançados pela editora Cosac Naify. Destaque para Vigo, Vulgo Almereyda e Jean Vigo.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.