Tributo a um gênio Cult chamado Michael Powel

Diretor de Sapatinhos Vermelhos é incensado pelos pares

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

05 de janeiro de 2011 | 00h00

Iniciado no fim de 2010, o ciclo que prossegue em São Paulo até o dia 16 no Centro Cultural Banco do Brasil reabre o debate sobre um artista fundamental, cuja importância tem sido avalizada por críticos e colegas realizadores. Há um culto a Michael Powell. A oficiante é sua eterna viúva, Thelma Schoonmaker, que ganhou três Oscars de montagem por filmes de Martin Scorsese (Touro Indomável, O Aviador e Os Infiltrados). O próprio Scorsese se vestiu de gala para ir apresentar, em Cannes, a versão restaurada de Sapatinhos Vermelhos. Bertrand Tavernier também não se cansa de incensar Michael Powell e, em Tetro, Francis Ford Coppola incorpora cenas de outro de seus clássicos, Contos de Hoffman.

É curioso que Powell, sozinho, seja considerado um gênio, porque boa parte de sua obra, na empresa The Archers, foi realizada em parceria com Emeric Pressburger. Hoje mesmo, o ciclo exibe um filme solo (Tortura do Medo) e outro em dupla (Perigo nas Sombras). Por mais considerável que tenha sido o aporte de Pressburger, ele, por sua origem como roteirista, contribuía principalmente na fase de roteiro. Powell, que foi assistente, roteirista e fotógrafo, antes de virar diretor, encarregava-se fundamentalmente da mise-en-scène. É um cinema que carrega na invenção visual.

No Dicionário de Cinema, Jean Tulard cita os críticos Raymond Lefèvre e Roland Lacopurbe - "O cinema é uma arte que, por vezes e através de seus impactos puramente físicos, consegue atingir o coração e, depois, o espírito. Mas essa performance é rara. Michael Powell é um dos dois ou três grandes cineastas que conseguiram esse milagre."

Tão importante quanto destacar a contribuição de Pressburger é assinalar o que o diretor de fotografia Jack Cardiff trouxe para Michael Powell em filmes como Narciso Negro e Sapatinhos Vermelhos. O primeiro é um filme erótico sobre freiras. Passa-se num mosteiro do Himalaia, mas foi quase todo feito em estúdio, na Inglaterra. O local foi um harém. As freiras, à frente Deborah Kerr, ficam perturbadas pela atmosfera de pecado - e pelo perfume do negro narciso, que o personagem de Sabu utiliza.

Sapatinhos Vermelhos, Scorsese disse em Cannes, visa à arte total - balé, música, pintura, literatura. A mesma coisa pode-se dizer de Contos de Hoffman, que encanta Coppola. Tortura do Medo, o experimento solitário, produz desassossego. Um cineasta mata as mulheres que filma graças a dispositivo acoplado à câmera. Ele quer captar sua expressão de medo. O pai era um cientista, que usava o filho como cobaia. O próprio Michael Powell faz o papel. De um tema sórdido, o autor tirou um filme perturbador. Poucas vezes o voyeurismo - do artista e do público - foi exposto com tanta clareza.

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