Tributo à música catalã

Celso Antunes, novo regente-assistente da Osesp, lembra Montsalvatge em CD

O Estado de S.Paulo

22 Fevereiro 2012 | 03h08

Barcelona lembra hoje nomes como Messi e Gaudí. E, num passado musical glorioso, um gênio do violoncelo como Pablo (Pau, em catalão) Casals. Entre os compositores, poucos ultrapassaram as fronteiras da Catalunha. Frederic Mompou (1893- 1987) e Xavier Montsalvatge (1912-2002) ainda são praticamente desconhecidos, mas fizeram música que merece ser ouvida com atenção. O primeiro, pela original produção para piano solo, zen, minimalista. E o segundo, pelo fino domínio da escrita musical, incluindo ginásticas criptografadas durante os anos de repressão de quase quatro décadas de ditadura franquista, entre 1939 e 1975, para manter viva a música catalã.

Montsalvatge é um produto da chamada "geração perdida" catalã, que viveu reprimida no regime de terror franquista - época em que nem sequer sua língua era reconhecida. Canciones & Conciertos, o primeiro CD que faz um tributo à passagem do centenário de seu nascimento é, coincidentemente, o mais recente do novo regente-assistente da Osesp, Celso Antunes, à frente da Orquestra da Rádio da NDR. Radicado na Europa há muito tempo, Antunes vive o melhor dos mundos: sua carreira, construída como regente coral, começa a decolar pra valer por lá, ao mesmo tempo em que assume a batuta de assistente na Osesp e como diretor pedagógico da edição 2012 do Festival de Inverno de Campos do Jordão. Em 2010 lançou CD para a Hänssler com obras de outro espanhol, Joaquin Turina, indicado para o Grammy; e ano passado, para a BIS, regeu Sun Dogs, obra coral de James MacMillan com o Coro da Rádio Holandesa, um dos três finalistas dos melhores CDs de 2011 da revista Grammophone.

A criação mais conhecida de Montsalvatge dura menos de 3 minutos. Intitula-se Canción de Cuna para Dormir a Un Negrito. Composta isoladamente em 1945, foi o núcleo de uma série de Cinco Canciones Negras, em que, de modo inteligente, o compositor contrabandeou elementos da música catalã sob o rótulo aparente e ostensivo de música cubana, ou melhor, caribenha. Vejam os títulos das outras quatro: Cuba Dentro de Un Piano, Punto de Habanera, Chévere e Canto Negro. Nascidas com acompanhamento de piano, foram orquestradas no mesmo ano e estreadas em Barcelona. A canção de ninar é sua assinatura musical. A voz calorosa da mezzo-soprano eslovaca Lucia Duchonova é perfeita para estas 'calientes' melodias.

Há, porém, outras preciosidades neste magnífico CD. O Poema Concertante, de 1948, nasceu como encomenda do virtuose polonês Henryk Szering, que se encantara com a Sinfonia Mediterrânea de Montsalvatge. O prestígio de Szering fez com que, em 1951, o poema para violino e orquestra fosse a primeira obra catalã a ser tocada em Madri desde o fim da Guerra Civil Espanhola em 1939. Em pouco menos de 13 minutos e refinada orquestração, solista e orquestra criam um tecido musical de enorme beleza. Interessante o início, com uma curtíssima introdução sinfônica e mais de 2 minutos solos, com direito a cadência, que só termina com o lírico tema inicial.

A escrita de Xavier Montasalvatge começa devedora dos compositores franceses do Grupo dos Seis, mas faz uma longa parada de assimilação em Ravel. Confira o encantadoramente raveliano Concerto Breve, em três contrastados movimentos em que o primeiro, Enérgico, e o terceiro, Vivo, impactam tanto quanto os concertos de piano do autor do Bolero.

Alicia de Larrocha, a grande pianista catalã, estreou mundialmente o concerto, gravou-o e o divulgou pelo mundo. A leitura de Jenny Lin é entusiasmante. Jovem e já reconhecida emérita especialista em música contemporânea, Lin gravou no ano passado a música para piano de Mompou, o outro catalão de destaque na música do século 20, assim como Elliott Carter, Ligeti e até o brasileiro Artur Kampela.

A regência orquestral segura e o repertório inovador deste e dos CDs mais recentes de Celso Antunes deixam claro que, aos 52 anos, o brasileiro está no melhor momento de sua carreira.

Crítica: João Marcos Coelho

JJJJ ÓTIMO

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