Tributo à Legião Urbana oscila entre amador e 'profissa'

Parafraseando Ortega y Gasset, um show é o show e a sua circunstância. É possível gostar dele por causa de seu efeito, mais do que de por sua relevância artística. Mas não é bom confundir as duas coisas.

O Estado de S.Paulo

31 Maio 2012 | 03h17

O Tributo à Legião Urbana da MTV acertou na estratégia de revisitar um dos mais vibrantes legados do pop nacional. Errou ao supor que somente o magnetismo da obra de Renato Russo seria suficiente para fazer um bom tributo - algum apuro técnico também seria interessante, inclusive para melhorar o que havia de claudicante na Legião.

Renato Russo (1960-1996) tinha como marca pessoal se expor, se colocar "com verdade e com honestidade", disse o ator Wagner Moura, escalado para ocupar o lugar do finado cantor. O ator foi em busca dessa verdade: se jogou no meio do público, teve a camiseta rasgada, berrou, chorou, se esmerou num overacting convincente (parecia mesmo um fã pinçado ao palco).

Wagner Moura, enfim, foi heroico, isso é unânime. Para mobilizar a emoção dos fãs, precisaria mesmo de alguém que fosse capaz de demonstrar uma conversão ao vivo, um tipo de Pombagira da interpretação. Ele foi bem nos hits, mesmo nos que não conseguia alcançar com sua voz de fã. O set de abertura, berrado pelo público, foi de arrepiar, com Tempo Perdido, Fábrica, Andrea Doria e Quase Sem Querer.

Mas Wagner foi traído pelos equívocos do repertório, como A Via Láctea - um tipo de balada do adeus do compositor. "Hoje fiquei com febre a tarde inteira." Não ficou nem pungente nem reacendeu o encanto. Ironicamente, o melhor momento do show foram as performances individuais dos dois legionários remanescentes, Marcelo Bonfá e Dado Villa-Lobos.

A aparição de Andy Gill, guitarrista da banda inglesa Gang of Four, funcionaria como um teste de DNA musical para expor as raízes históricas da Legião. A música do Gang of Four escolhida para isso foi Damaged Goods (reconhecível hoje no som de bandas como Bloc Party e Franz Ferdinand).

Mas Dado mandou muito bem no vocal e, apesar de penetra, Andy Gill foi o ponto alto da festa. Sua fleuma britânica deu uma nova pulsão ao clássico Ainda É Cedo (embora o microfone de Moura tenha falhado no início), que teve ainda o reforço de Bi Ribeiro, dos Paralamas. Marina Lima, que gravou versão matadora dessa música, estava na plateia, encantada com a reinvenção. O tributo pegou todo mundo, tinha gente se acabando de cantar e dançar. Não tem de ter culpa de se divertir. O problema é: quando acaba a festa, o que permanece?

Crítica: Jotabê Medeiros

JJJJ ÓTIMO

JJJ BOM

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.