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Tribunal na web: redes sociais criam os heróis e vilões da cultura pop

Reações em Twitter, Facebook e Instagram passam a alterar – ou colocam no lugar – questões sociais na arte

Pedro Antunes, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2018 | 06h00

Vincent D’Onofrio colocou o futuro da sua carreira de ator nas mãos dos seus seguidores no Twitter – como é possível ler aqui.

A preocupação é clara do sujeito que, aos 59 anos, tem uma indicação para o Emmy e coleciona papéis em séries como Law & Order: Criminal Intent (Lei e Ordem: Crimes Premeditados, no Brasil) e Demolidor.

Não tem um currículo invejável ou coisa do tipo. Mesmo assim, talvez por não ocupar um lugar de “realeza” em Hollywood, ele está preocupado. Deveria ele, em tempos tão polarizados, intensos e imediatos das redes sociais, viver um personagem “irrecuperavelmente racista numa série dramática”, como ele questionou no Twitter? 

Porque as redes sociais são mais do que “bons dias” disparados pelas nossas tias, piadas com times de futebol e memes com gatinhos. Hoje, são termômetros de uma sociedade em transformação, como explica Daniel Martins de Barros, blogueiro e colunista do Estado, e psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas (IPq-HC).

“Somos uma sociedade em transformação e aos poucos vamos ganhando consciência”, ele explica, sobre as mudanças de comportamento a partir das novas regras sociais – ou do politicamente correto. Aliás, é esse o tema de um texto publicado pelo psiquiatra no portal Emais, do Estado: “O politicamente correto é uma chatice. Para piorar, ele tem razão”, diz o título.

A partir dele, Martins de Barros expõe como o comportamento normatizado de décadas atrás não faz sentido no nosso presente – no caso, em 2017, quando marchinhas de carnaval racistas tinham seu uso questionado e geravam uma nova polaridade entre a turma do “esse politicamente correto é chato demais” e aquela do “tá certo, devemos parar de repetir os erros do passado”.

Acontece que, pelo menos em São Paulo, as marchinhas com conteúdo machista, racista e por aí vai, foram deixadas de lado no carnaval deste ano. E, como esperado, não fizeram falta.

O questionamento de D’Onofrio nas redes sociais mostra também é a força que a rede social hoje tem para criar seus heróis e vilões. Cor e gênero, principalmente, são os temas mais sensíveis. 

Veja só: o anúncio de uma série de animação brasileira na Netflix chamada Super Drags, protagonizada por três personagens que são heroínas e drag queens, com foco no público adulto, foi suficiente para a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP) publicar uma nota oficial com o pedido pelo cancelamento dela, com a alegação de que o conteúdo ali seria impróprio para o público infantil.

A Netflix respondeu se tratar de uma série focada em uma audiência adulta. Ainda assim, o rebuliço nas redes foi grande. 

O alvo da vez é a Disney. A companhia do Mickey recentemente demitiu James Gunn, o diretor dos filmes Guardiões da Galáxia por conta de comentários no Twitter de anos atrás.

Os tuítes de Gunn com referências à pedofilia e estupro foram publicados entre 2008 e 2011. A Disney demitiu o diretor, que estava escalado para dirigir Guardiões da Galáxia Vol. 3. Sacou a mente criativa por trás de uma franquia que, com dois filmes, arrecadou US$ 1,6 bilhão.

Pedido de desculpas do diretor, carta de apoio do elenco e comentários favoráveis a Gunn nas redes não foram suficiente, ainda, para que ele seja readmitido. 

Uma nova polêmica em torno da Disney foi iniciada nesta semana, quando um artigo do jornal The Sun dizia que o primeiro personagem “abertamente gay” do estúdio, a ser interpretado pelo ator Jack Whitehall – um heterossexual, aliás –, seria “extremamente afetado” e “muito afeminado”.

Os termos foram muitíssimo mal recebidos. Ativistas de direitos LGBT disseram que a companhia arrisca estragar um momento determinante ao “explorar sentidos figurados negativos e clichês sobre pessoas homossexuais”, segundo a agência de notícias Reuters. 

Fabiana Cozza é o caso mais recente no Brasil

O caso mais recente de respostas negativas nas redes sociais por aqui se deu em junho, quando a cantora Fabiana Cozza foi anunciada como uma das intérpretes de Dona Ivone Lara no musical que retratará a vida da sambista. Cozza foi acusada de ser “branca demais” na internet e renunciou ao papel na peça

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