'Tribos' foi montada por esforço conjunto

Peça é definida pelos atores como uma comédia perversa - há diálogos hilariantes que, muitas vezes, mascaram os problemas familiares

Ubiratan Brasil,

31 de agosto de 2013 | 19h01

Tribos marca o retorno a uma forma antiga e saudável de se produzir teatro: por meio de uma cooperativa. "Decidimos não buscar patrocinadores tampouco inscrever a montagem nas leis de incentivo", comenta Antonio Fagundes que, no início da carreira, acostumou-se ao esforço coletivo para levantar espetáculos instigantes como Morte Acidental de um Anarquista e Cyrano de Bergerac.

Assim, a montagem nacional do texto de Nina Raine nasce a partir da soma de talentos, que incluem ainda a iluminação de Domingos Quintiliano e os figurinos de Alexandre Herchcovitch. "Era preciso criar um guarda-roupa específico para essa família", comenta Bruno Fagundes. O detalhe, aliás, alinha-se a um importante ponto do trabalho do diretor Ulysses Cruz: a verossimilhança. "São todos personagens muito particulares, às vezes malucos demais, mas demasiado humanos", observa. "Assim, no trabalho com o grupo, sempre me preocupei em não deixar que o humor fosse utilizado como arma fácil para agarrar o público."

Tribos é definida pelos atores como uma comédia perversa. De fato, há diálogos hilariantes que, muitas vezes, mascaram os problemas familiares. "O pai, por exemplo, não admite aprender a linguagem de sinais, por considerá-la dispensável e difícil, mas, mesmo assim, orgulha-se de estudar mandarim", conta Fagundes.

O que interessa aos atores, no entanto, são as diversas camadas de entendimento oferecidas pelo texto de Nina Raine. A deficiência auditiva de Billy é uma metáfora para as limitações do ser humano. "A peça fala sobre como as pessoas não se ouvem mais", observa Fagundes. "Hoje, é comum encontrar principalmente jovens curvados sobre seus celulares, alheios ao que ocorre ao redor. Isso é uma espécie de surdez social, quase não temos mais conversas olho no olho."

O próprio ingresso de Billy ao mundo da linguagem por sinais revela um dilema enfrentado por pessoas com deficiência auditiva. Afinal, se eles aprendem uma nova forma de se comunicar, estarão condenados a um gueto? Ou, na verdade, estão apenas se fixando em sua própria "tribo", capaz, enfim, de se expressar livremente?

As questões acompanharam a preparação de Bruno Fagundes e Arieta Correia, que conheceram, pela internet, rapazes e moças que vivem socialmente com a deficiência. O trabalho foi marcado por surpresas. "Comecei a estudar com um instrutor que não lia lábios, ou seja, só falava por sinais", lembra Bruno. "Tivemos de fazer alguma mímica nas primeiras aulas até eu aprender alguns sinais." O ator engajou-se de tal forma que agora frequenta grupos, mantendo contato constante.

Já Arieta buscou auxílio na escola do filho, que mantém atividades especiais para deficientes auditivos. "Comecei a frequentar os encontros e logo descobri que são pessoas extremamente amáveis", observa a atriz. "Eles utilizam muito as mãos e, por isso, o tato é uma forma de exprimir carinho."

O grupo de atores também aprofundou o estudo do livro Vendo Vozes (Companhia das Letras), em que o neurologista inglês Oliver Sacks desvenda o universo dos surdos, a partir do drama e das lutas das pessoas portadoras da deficiência.

"Vamos fazer também alguns testes, reservando espaço em algumas sessões para os surdos", conta Antonio. "Dependendo dos resultados, queremos tornar essa prática regular." Uma intenção de quem pretende alargar a socialização por meio da arte. "Afinal, o mundo é surdo e, muitas vezes, cruel."

 

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