Três vezes Stanley Kubrick em DVD

Os primeiros Kubricks a gente não esquece. Os últimos, também, pois se trata, afinal, de um dos maiores gênios que já trabalharam no cinema, levando o mais longe possível o potencial desta forma de arte e linguagem que necessita de um suporte industrial. Necessita mesmo? No caso de um Kubrick, sim. Sua investigação da linguagem exige recursos bastante amplos, bastando citar 2001, Uma Odisséia no Espaço, a fantasia científica dos anos 1960 que influenciou, decisivamente, tudo o que foi feito depois, no gênero. Agradeça agora à Cinemagia. A empresa está lançando uma caixa de DVDs com os primeiros filmes de Stanley Kubrick. Na verdade, falta justamente o primeiríssimo, Fear and Desire, de 1953. Excetuado o primeiro filme, os três seguintes integram o pacote da Cinemagia. A Morte Passou por Perto, O Grande Golpe e Glória Feita de Sangue. Foram feitos, respectivamente, em 1955, 56 e 57. Chamam-se, no original, Killer?s Kiss, The Killing e Paths of Glory. Killer?s Kiss conta a história da relação de um boxeador e uma dançarina. A trama de amor e vingança dura apenas 67 minutos, mas apresenta raro brilho de edição que já a transforma em emblema do que Kubrick iria fazer nas obras seguintes. Uma cena que se tornou particularmente emblemática é a da briga filmada entre manequins que aparecem como corpos decepados, aumentando a tensão. Uma rápida olhada nos registros de época indica que os críticos foram unânimes em ressaltar a influência de Orson (Cidadão Kane) Welles sobre o jovem Kubrick. Ele seria um dos herdeiros (o herdeiro?) do grande Welles. The Killing bebe em outra fonte, o John Huston de O Segredo das Jóias (The Asphalt Jungle), de 1950. Kubrick quis fazer seu filme de ´assalto perfeito´. O plano, aqui, é roubar a caixa-forte de um hipódromo na hora em que todas as atenções estiverem voltadas para a disputa do grande prêmio. A originalidade de situar o ataque nas corridas, as complexas relações entre os personagens, tudo contribui para que O Grande Golpe seja, como escreve Jean Tulard em seu Dicionário de Cinema, um dos ápices do filme noir. O melhor de todos estes Kubricks, porém, é Glória Feita de Sangue. Se é verdade, como dizem os críticos, que o cineasta era um megalômano obcecado por fazer o melhor filme de cada gênero, esta é a sua obra-prima no cinema de guerra ou contra a guerra. Pois o partido de Glória Feita de Sangue é radicalmente antimilitarista. O filme baseia-se num caso polêmico da história militar da França no século passado. Foi proibido por décadas no país. O antimilitarismo do autor vai muito além da mensagem (ou preocupação) pacifista. Kubrick vai fundo na crítica às instituições. O tema de Glória Feita de Sangue é a injustiça produzida pela estratificação social. Em plena 1.ª Guerra, Kirk Douglas atua como advogado na corte marcial de soldados acusados de covardia. Na verdade, eles serão sacrificados pela cúpula do Exército para encobrir os próprios erros. O filme é poderoso. E já antecipa, no castelo rococó, os movimentos de câmera que Kubrick foi buscar num de seus autores preferidos, Max Ophuls, o cineasta da valsa. O pacote da Cinemagia não chega a ser pródigo em extras. Tem trailers, biografias. Poderia ter muito mais. A homenagem a Kubrick, de qualquer maneira, é importantíssima.

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