Três personagens e um Oldsmobile

São apenas três atores no elenco, mas o Oldsmobile, típico carro norte-americano da década de 40, que entra em cena logo no início de Conduzindo Miss Daisy, já tem status de personagem. "Ele tem aquela versatilidade dos atores, pois representa os três veículos que vão pertencer a Miss Daisy no decorrer dos 25 anos da história", diz o cenógrafo responsável pelo espetáculo, Alexandre Murucci. A solução técnica para encenar a história de Alfred Uhry, na qual os dois protagonistas passam quase metade dos 90 minutos de duração da peça dentro de um carro, foi fabricar um veículo vazado, montado apenas com estruturas de ferro. "Precisávamos de algo que representasse com clareza as formas do carro, que é um elemento essencial para a história, mas isso não poderia impedir que o público visse os atores com clareza", diz Muruccci. O resultado foi uma espécie de escultura, com 3,90 m de comprimento, que ocupa quase um terço do palco. "Apesar das grandes proporções, a estrutura do carro é leve, sendo fácil movimentá-lo pelo palco", conta o cenográfo, que precisou até reformar o Teatro Hilton para colocar em cena sua mais nova criação. "Tivemos que pedir para derrubarem duas paredes do teatro, pois não havia como o carro sair de cena. Com isso o palco acabou ganhando mais 1,5 metro de comprimento." Com a experiência de quem já elaborou cenários para grandes produções como Deus lhe Pague, com direção de Bibi Ferreira, e Frisson, musical de Marcelo Saback, Murucci criou um modelo simples e funcional, com portas que abrem e fecham e até faróis que acendem. Depois de realizar uma minuciosa pesquisa de época, Murucci resolveu consultar um restaurador de carros antigos para fazer os últimos ajustes. "Queria que ele me ajudasse a encontrar umas calotas adequadas." Mas a preocupação com os detalhes não se restringe ao Oldsmobile. Quem estiver na primeira fila da platéia poderá notar o trabalho artesanal realizado nas estruturas que representam as paredes da casa de Miss Daisy. "São dois tecidos sobrepostos, com 6 mil flores recortadas, uma a uma, e coladas sobre eles", diz Murucci, referindo-se a um trabalho que contou com uma equipe de 12 pessoas para ser concluído. É por meio das transparências florais e de engenhosos jogos de luz que Murucci pretende compor o que chama de cenário poético. A iluminação vai transformar a sombria e organizada casa de Daisy em um ambiente tomado por flores vazadas "Essas alterações vão acompanhar a própria modificação da personagem, que começa a história com uma postura rígida e preconceituosa e temina a peça bem mais humana, por conta da descoberta de um relacionamento verdadeiro." Serviço: Conduzindo Miss Daisy. Teatro Hilton (Av. Ipiranga, 165, tel.: 3156-4300). Sextas e sábados, às 21h30; domingo às 18h. Ingressos: sextas e domingos a R$ 35; sábados, R$ 40.

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