Três mil mulheres 'dublam' Diana Ross no show de Lionel

SHOW

Entrevista com

Crítica: Jotabê Medeiros, O Estado de S.Paulo

30 de agosto de 2010 | 00h00

Primeiro espanto: Lionel Richie está igualzinho ele era quando a gente tinha 15 anos. O bigodão, as pulseiras, o coletinho, a calça de couro - nem rugas no rosto parece que o homem cultivou. Em seu primeiro show no País, no Ginásio do Ibirapuera, no sábado à noite, o velho ídolo da soul music norte-americana mostrou voz impecável, animação contagiante, domínio pleno do timing do entretenimento e, principalmente, capacidade de manter-se dono de seus próprios sucessos (em vez de ter se tornado um refém deles).

Alternando sets com músicas de seu tempo no grupo Commodores, epígono da black music, e de sua bem-sucedida carreira solo (dividida entre interpretações ao piano). Jogava lenços negros encharcados de suor para a plateia, rebolava, derramava-se em declarações de amor ao público. "Levou muito tempo para que eu chegasse aqui. E acho que agora não vou deixar vocês nunca mais." Durante mais de uma hora e meia, ele cumpriu a promessa e permanecerá aqui para sempre, pela generosidade musical. Lionel está inteiraço, uma pena que os ingressos eram tão caros e alguns lugares privilegiados da audiência estavam vazios...

Segundo espanto: Lionel tem perfeita noção de que sua música se insere em alguma espécie de compartimento estanque da memória sentimental de gerações, e não renega isso. Embora o show tenha sido aberto com um híbrido de disco music dos anos 1970 e tecno dos anos 1990, Lionel é o ídolo das FMs que se diverte com esse papel, e até o reforça. No telão, rosas, borboletas e corações alternavam-se com imagens estouradas dos néons de Wall Street (quando cantou Dancing on the Ceiling, isso se acelerou até a vertigem). O repertório era "modernizado" aqui e ali com toques leves, sem descaracterizar as versões clássicas (por exemplo, durante a execução de Easy, uma inserção de um toque reggae no meião deu o tom).

Momento-chave. Antes de cantar Endless Love (tema do filme Amor sem Fim, megassucesso romântico com Brooke Shields, do início dos anos 90), ele brincou que costumava cantar isso com uma grande cantora, que não estava no recinto naquele momento para compartilhar consigo a canção. "Diana está na casa? Não?", perguntou lá para o fundão. "Mas não tem problema. Temos aqui hoje 3 mil mulheres na plateia, e elas vão cantar as partes que Diana cantava." Regendo o maior coro feminino que o Ibirapuera viu desde a passagem recente de Roberto Carlos, ele obteve amplo êxito na tentativa. Foi de cortar o coração.

Remanescente da era de ouro das gravadoras black Motown e Stax, Lionel Richie foi em sua carreira-solo tão grande quanto Michael Jackson, de quem era grande amigo. Mas fez seus grandes hits (pelo menos uma meia centena deles) até os anos 1980, e hoje vive dos dividendos dessa fortuna cultural. Enquanto ele cantava ao piano Say You, Say Me, um ursinho branco de pelúcia sobre o piano (jogado no palco por uma fã) parecia lembrar que era tudo de brinquedo, como naqueles filmes-fantasia da Disney, mas que brincar é bom, e com Lionel Richie é ainda mais harmonioso.

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