Três meninas do Brasil

Sensibilidade e delicadeza no trato de temas pesados, assim Sandra Werneck dirigiu Sonhos Roubados

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2010 | 00h00

Sílvio Tendler dedicou 20 anos ao projeto de Utopia e Barbárie. Comparativamente, a diretora Sandra Werneck vem trabalhando bem menos no universo de Sonhos Roubados, mas também são quatro anos. Quatro! Diretora de documentários (Guerra dos Meninos) e ficções (Pequeno Dicionário Amoroso e Amores Possíveis), Sandra havia feito outro documentário, Meninas, sobre adolescentes grávidas. No fim, ela estava sem projeto, mas, de certa forma, insatisfeita, querendo aprofundar não apenas as questões femininas propostas pelo filme, mas as questões mais abrangentes - e que se referem ao ser humano que vive em condições adversas.

Trailer. Veja trechos de Sonhos Roubados

Foi quando leu As Meninas da Esquina, da jornalista Eliane Trindade. Começou a nascer o filme que estreia hoje, fechando um ciclo. Sandra vai poder mudar, tentar outra história (que já tem engatilhada). A ficção de Sonhos Roubados engata na realidade documentária de Meninas. Ambos os filmes completam-se. Sandra ficou feliz quando uma de suas três "meninas", Nanda Costa - o filme conta a história de três jovens na comunidade -, ganhou o prêmio de melhor atriz no Festival do Rio, no ano passado. O prêmio impulsionou a carreira de Nanda e ela está na novela das 8. Mas Sandra preferiria ter visto o prêmio ser compartilhado pela três - Amanda Diniz e Kika Farias completam o trio. "A preparação do elenco foi crucial para o filme", avalia a diretora.

Sandra conta que não foi nada fácil chegar ao dia de hoje. Ela tinha uma distribuidora - uma Major - interessada no projeto e que acenava com a verba do artigo 3.º. Outra empresa começou a negociar. No final, a primeira não colocou dinheiro e a segunda desistiu. Sandra fez Sonhos Roubados com as verbas de concursos que conseguiu levantar. Quando o dinheiro do Fundo Setorial saiu, o filme estava pronto e ela o devolveu. A distribuidora Europa, alegando prejuízo com Lula, o Filho do Brasil, não podia arcar com o lançamento e Sandra também não queria esperar por novos editais. Recorreu aos amigos, endividou-se. Como Carla Camurati, em Carlota Joaquina, foi à luta e saiu pelo Brasil mostrando suas novas meninas.

Sonhos Roubados estreia no Rio, em São Paulo e em Brasília. "Depois, a gente vê como fica", diz a diretora. É preciso reinventar continuamente o cinema brasileiro, a produção, a distribuição. Essa persistência de Carla, de Sandra, é coisa de mulher? Sandra Werneck não acredita nessa coisa de olhar feminino. Sabe que os homens, no cinema brasileiro, são grandes batalhadores. Mas ela admite que não consegue ver Sonhos Roubados dirigido por um homem. No livro, as três garotas pertencem a comunidades diferentes. Sandra juntou-as na mesma comunidade, numa história de amizade que tem abuso, estupro, pedofilia. "As pessoas ressaltam para mim a delicadeza com que tratei o tema pesado. Meu trabalho no Dicionário e em Amores Possíveis me deu as ferramentas. Foi um set feliz, apesar das dificuldades. As atrizes são jovens demais e poderiam não ter ficado à vontade." Marieta (Severo) resumiu o clima - "Ai, gente, isso aqui está tão bom. Cria mais uma cena, Sandra, para a gente ficar mais tempo juntas."

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