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Três livros revisitam obra e vida de Iberê Camargo

Inquietações e tormentos existenciais da pintura do artista gaúcho, considerado criador do 'realismo grotesco'

29 Maio 2010 | 05h00

Antonio Gonçalves Filho - O Estado de S. Paulo

 

SÃO PAULO - Logo na introdução do seu livro Iberê Camargo: Origem e Destino (1914-1994), um dos três volumes centrados no pintor gaúcho que a Cosac Naify publica em parceria com a fundação que leva seu nome, a professora de história da arte Vera Beatriz Siqueira lembra uma anedótica observação feita pelo artista na última entrevista concedida pouco antes de morrer: Iberê acreditava que iria para o inferno e lá o próprio Diabo o receberia, mandando-o sentar num banco vermelho em brasa. Então, abrindo uma cortina, o tinhoso mostraria ao artista tudo o que produziu em vida: quadros, gravuras e desenhos. Iberê, angustiado, saltaria do banco para gritar: "Tinta, tinta, tinta, por favor, quero retocar algumas coisas." A anedota, segundo a professora, toca em duas questões fundamentais para compreender sua obra: seu compromisso moral com a arte e o caráter aberto de sua produção.

 

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Com efeito, é justamente esse caráter que vem alimentando teses e ensaios sobre o artista desde 2003, quando a Cosac Naify fechou uma parceria com a Fundação Iberê Camargo para mapear sua obra. De lá para cá a editora lançou Diálogos com Iberê Camargo, organizado pela crítica Sônia Salzstein, seguido pelo catálogo raisonné de gravuras produzido em 2006 pela professora e crítica Mônica Zielinsky, primeiro de uma série que terá outros catálogos dedicados a pinturas e desenhos do artista. Enquanto esse trabalho não é concluído, obras pouco conhecidas do pintor podem ser vistas nos três títulos agora colocados no mercado: o citado Origem e Destino, o volume de ensaios Tríptico para Iberê - três textos sobre a obra pictórica e ficcional do artista - e o livro de memórias Gaveta dos Guardados, agora reeditado com organização e apresentação do editor Augusto Massi.

 

Os três livros formam outro tríptico, mas têm existência autônoma - e sugerem uma ordem de leitura que vai se tornando cada vez mais complexa. Origem e Destino é organizado de forma cronológica, como uma biografia, e serve de valiosa introdução à obra de Iberê Camargo, contando como o filho de um ferroviário de Restinga Seca (RS) se tornou aluno do metafísico italiano Giorgio de Chirico (1888-1978) e do cubista francês André Lhote (1885-1962) e, posteriormente, professor de alguns dos maiores pintores do País, entre eles Eduardo Sued e Paulo Pasta. Gaveta dos Guardados é uma coletânea de textos memorialísticos sobre a formação do artista, escrito no período final de sua vida e dividido em núcleos temáticos - um esboço autobiográfico sem autoindulgência. Já Tríptico para Iberê fecha o ciclo ao relacionar biografia e obra em três ensaios: o primeiro, da pintora Daniela Vicentini, analisa seu processo pictórico; o segundo, da ilustradora Laura Castilhos, é uma tese sobre a série dos "carretéis" (1958) defendida na Espanha (e publicada no livro na língua original para atingir os países de cultura hispânica); finalmente, o último, do professor e jornalista Paulo Ribeiro, analisa a obra escrita de Iberê, que chegou a publicar um volume de contos (No Andar do Tempo) em 1988.

 

Leitor refinado de Dostoievski e Faulkner, segundo Ribeiro, Iberê criou em suas narrativas personagens acossados por um mundo hostil e afundados na angústia, exatamente como os ciclistas pintados nas últimas grandes telas, que já não pedalam (como na pintura No Vento e na Terra, de 1991, reproduzida na capa deste caderno), mas sucumbem à força da gravidade, atraídos pela morte, pelo chão. O professor afirma que a deformação, tanto na pintura como na literatura de Iberê, nasce da necessidade de expressão, associando seus personagens transfigurados à metamorfose modernista que antes dominou a obra do caricaturista francês Honoré Daumier (1808-1879) e do belga James Ensor (1860-1949). Iberê, diz Ribeiro, teria sido guiado pela "bússola do grotesco". De fato, o próprio pintor cunhou o termo "realismo grotesco" para definir suas últimas pinturas, em que a realidade é empurrada para o fundo da tela e o grotesco salta à superfície por meio da transfiguração de personagens com rostos idiotizados e corpos pantagruélicos.

 

Já em 1984, ao pintar um dos seus muitos autorretratos, Iberê fazia surgir sua imagem de um território pastoso em que forma e matéria, segundo o crítico Rodrigo Naves, mantinham entre si uma relação de estranhamento, como se aquilo que desse corpo às formas constituísse igualmente uma "ameaça". O pintor mostrava-se, então, interessado no que chamou de "fantasmagoria dos homens e suas imagens interiores", prevalecendo em seus trabalhos um gesto expressionista expansivo, vital, enquanto as pinturas do último período seriam marcadas pela imobilidade da morte. Em Origem e Destino, a professora Vera Beatriz estuda minuciosamente cada uma dessas fases, mostrando como o retorno à arte figurativa nos anos 1980 não está ligada a uma tentativa de retomar o caminho inicial, embora fazendo uso de alguns de seus elementos inaugurais. Isso aconteceu logo após Iberê ser absolvido pela morte de Sérgio Alexandre Esteves Areal (em dezembro de 1980) numa briga de rua, em que o pintor disparou contra o engenheiro após ser agredido.

 

Nesse período dominado pela transvanguarda italiana, Iberê vive uma fase de valorização de suas pinturas antigas (as telas abstratas dos anos 1950), mas não sucumbe ao gosto do mercado. Segue em frente em seu caminho expressionista, retratando seres em trânsito - os ciclistas , personagens em movimento que, nos anos 1990, surgem transfigurados, desolados, paralisados em gigantescas e dramáticas telas.

 

A obra em grandes dimensões, antes de ser um surto megalomaníaco, era uma necessidade. O uso perdulário das tintas levava ao limite o seu envolvimento com a materialidade da pintura, segundo observação da autora de Origem e Destino, que destaca a estreita ligação de Iberê com a tradição como responsável pelo cuidado que o pintor dedicava à escolha das tintas e das telas. A superioridade dos materiais seria uma garantia contra a degradação física dos trabalhos - e, consequentemente, uma ferramenta para preservar a memória, aspecto que o pintor sempre abordava em suas entrevistas, nas quais criticava invariavelmente o desprezo dos brasileiros pela história. Iberê, que estudou com os grandes mestres europeus e brasileiros (Guignard, entre eles), aprendendo a pintar com os clássicos, aproveitou sua passagem por Roma para frequentar um curso de gravura com Carlos Alberto Petrucci, dialogando em sua volta ao Brasil com o maior representante modernista da técnica, seu amigo Oswaldo Goeldi (1895-1961). Iberê sempre disse que um verdadeiro artista não rompe com o passado. Antes, busca nele aquilo que falta ao presente em termos de técnica e linguagem.

 

No livro Tríptico para Iberê, Laura Castilhos mostra como as semelhanças entre o pintor gaúcho e o gravador carioca não se limitam ao tratamento da luz e à composição. Goeldi contribuiu com a atmosfera densa e a massa sombria que caracterizam a obra de Iberê dos anos 1960 em diante (quando os carretéis, forma fundadora de sua pintura, se transfiguram, abandonando o estado inercial). Em seu ensaio, a autora destaca ainda a correspondência da obra de Iberê com a linguagem de metafísicos italianos, em especial Giorgio Morandi (1890- 1964), e a sintaxe renovadora dos expressionistas abstratos (o holandês De Kooning, 1904-1997), não esquecendo a proximidade com a pintura do irlandês Bacon (1909-1992).

 

O contraste entre a cor da sombra e a cor da luz, segundo o ensaio de Daniela Vicentini em Tríptico para Iberê, foi investigado pelo gaúcho segundo o mesmo procedimento de Bacon, ou seja, observando mestres como Velázquez, Ticiano, Tintoretto e Vermeer. O pintor brasileiro, que ganhou uma bolsa para estudar pintura na Itália, em 1948, aproveitou sua viagem para copiar os mestres nos museus. Ao voltar, em 1951, justamente o ano da primeira Bienal de São Paulo, não se entregou de imediato ao abstracionismo ou à arte concreta como outros artistas, marcados pelo reconhecimento do escultor suíço Max Bill nessa edição da mostra internacional. Continuou pintando paisagens. Mas foi na Bienal de 1957 que, impressionado com as garrafas de Morandi, usou os mesmos objetos como pretexto para o maior salto empreendido até então em sua carreira - o advento dos carretéis em 1958, fato que mais ocupa os ensaístas e autores dos livros agora lançados, em especial Laura Castilhos, que dedica a eles um longo ensaio no Tríptico para Iberê.

 

Tanto para Vera Beatriz, a autora de Origem e Destino, como para Laura, os carretéis foram a grande contribuição pessoal de Iberê Camargo à modernidade. Foi decisiva a escolha desse objeto associado à infância do artista - o carretel de costura da mãe com que brincava, transformado em carrinho ou soldado - que não se ajusta à imobilidade do plano pictórico, como observou o crítico Ronaldo Brito. No começo, esses carretéis jaziam imóveis sobre a mesa, mas viram "estruturas dinâmicas" nos anos 1960, quando Iberê os pinta de cima e de perfil. O crítico Paulo Sérgio Duarte, referindo-se a um "carretel" de 1961, disse dele que era apenas um pretexto para um exercício expressionista, intuindo a transfiguração do objeto em trabalhos posteriores.

 

Mudança. De fato, o temperamento explosivo de Iberê e o modo obsessivo com que se relacionava com a pintura não permitiriam que os carretéis ficassem muito tempo à sombra das garrafas de Morandi ou do lirismo de suas naturezas-mortas. Eles seriam transformados em "míticos personagens de uma saga de fantasmagóricas visões", como observa Laura Castilhos em Tríptico para Iberê. Ironicamente, conta a autora, Iberê foi forçado ao repouso por um problema de saúde, aos 44 anos, e passou a pintar esse elemento familiar. Não era só uma mudança temática numa obra que então adotara a natureza-morta morandiana como modelo, primeiro com as garrafas e outros objetos de suas pinturas de 1957. Para Vera Beatriz, "o encontro com esses brinquedos de infância revela a densidade do problema formal enfrentado pelo artista, o de erguer uma linguagem moderna a partir da experiência renovada do passado".

 

Essa linguagem é metafórica porque Iberê, muitas vezes, conforme observa Paulo Ribeiro no ensaio sobre sua literatura, recorria a alegorias para a representação de cenas do cotidiano, tanto nas telas como nos escritos. O pintor gostava de fábulas, como revela seu diário italiano e contos como A Febre, ainda segundo Ribeiro: "Esse viés alegórico culmina com esse conto grotesco", observa. São igualmente "abundantes" as metáforas em suas memórias, conclui, comparando-as a poemas. O processo criativo do artista evidenciaria, segundo o ensaísta, "uma relação de afinidade entre a palavra do poeta e a visão do pintor" - clara em A Febre, conto sobre um enviado do mundo das trevas que assombra o personagem Federico.

 

Também na construção do memorialista Gaveta dos Guardados, ele identifica um procedimento muito próximo da pintura, reforçando a observação do editor Massi quando sugere afinidades entre seu livro de memórias e a fase dos carretéis. Para Massi, "princípios de ordem construtiva convivem com uma subjetividade tensa e experimental", provocando uma narrativa "lacunar e descontínua". Escrever, como dizia Iberê, é pintar com palavras e ele pintou o grotesco não só na caricatura que faz de si mesmo ao rememorar fatos de sua juventude, como ao criar, em seus contos, tipos depois revisitados em suas pinturas. Iberê é o Savino de seu conto O Relógio, publicado em No Andar do Tempo. Trata-se de um menino que perde o relógio na latrina do quintal e decide remexer o passado com a enxada, encontrando soterrados soldadinhos, cornetas e carretéis. A exemplo de Savino, Iberê Camargo passou a vida escavando o passado para que essa história não se perdesse. E não se perdeu. Ela está aí, em livros e nas telas.

 

Iberê Camargo:Origem e Destino

Autora: Vera Beatriz Siqueira

Editora: Cosac Naify

(112 págs., R$ 29)

 

 

 

Tríptico Para Iberê

Autores: Daniela Vicentini,

Laura Castilhos e Paulo Ribeiro

Editora: Cosac Naify

(443 págs., R$ 49)

 

 

 

 

Gaveta dos Guardados

Autor: Iberê Camargo

Organizador: Augusto Massi

Editora: Cosac Naify

(144 págs., R$ 25)

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