Três leituras do cristianismo

Estudos recém-lançados no País, de autoria de prestigiosos historiadores europeus, examinam, sob diferentes pontos de vista, as origens, os primórdios e o desenvolvimento da religião cristã

J. C. Ismael, O Estado de S.Paulo

14 de agosto de 2010 | 00h00

Historiador, e respeitado intérprete de Marx e Engels, Karl Kautsky (1854-1938) nasceu em Praga, mas passou parte da vida na Alemanha, onde publicou sua obra mais conhecida, A Origem do Cristianismo, que recentemente ganhou uma edição por aqui. Atraído, e logo prestigiado pelo Partido Social-Democrata alemão, caiu em desgraça ao se opor ao regime ditatorial decretado pelos líderes da Revolução Russa, e mesmo acusado por um irado Lenin de "renegado", manteve-se no caminho da moderação até o fim da vida.

De Kautsky saíram no Brasil A Questão Agrária e O Caminho do Poder, este último, a exemplo de A Origem..., também traduzido por Moniz Bandeira - um dos extraordinários intelectuais do País, com mais de 20 livros publicados -, para quem, certamente, foi uma empreitada menos difícil que a enfrentada agora. Bandeira lembra que a edição princeps, de 1908, comprada num antiquário de Heidelberg, onde vive, era em letras góticas. Além disso, continha expressões de penosa equivalência em português e complexas notas explicativas de personalidades históricas, deuses e seitas da antiguidade referidas pelo autor.

Adepto da concepção materialista da História, Kautsky não tem dúvida de que o cristianismo, "um dos fenômenos mais importantes da história da humanidade", era, na nascente, um movimento de massas proletárias às quais se deve o fortalecimento da nascente religião. Muitos autores pensam da mesma forma, mas outros como o cardeal Jean Daniélou e o pensador marxista Heinz Kreissig afirmam que sem o envolvimento das classes abastadas e da aristocracia, o prestígio do cristianismo teria sido muito menor. Os que os seguem lembram também que a linguagem sofisticada dos primeiros escritores cristãos comprova que era dirigida a leitores letrados e cultos.

Kautsky está entre os estudiosos para os quais "o caos" da origem das fontes pagãs e cristãs do cristianismo se deve à falta de confiabilidade na autoria das obras do principal historiador judaico-romano Josefo (Flavius Josephus - 37 a.C?-100 d.C.), de historiadores menores e os do judaísmo. Sua falta de fidúcia atinge o Apocalipse e os próprios Evangelhos, corroborando a opinião de estudiosos de que não foram escritos por um contemporâneo de Jesus. Sendo assim, só lhe restou valer-se de historiadores e pesquisadores renomados, adicionando-lhes intervenções valiosas. Mas se a história da origem do cristianismo é controversa, a sua propagação se deu naturalmente, ou decorreu de algum fato histórico?

Decorreu sim, responde Paul Veyne em Quando o Nosso Mundo se Tornou Cristão (2007): graças à conversão formal de Constantino (272-337), o cristianismo passou a ser, a partir de 312, a religião oficial do poderoso Império Romano. Acontecimento ainda mais inusitado pelo fato de a conversão ter ocorrido graças ao célebre sonho, embora para o autor o tal sonho apenas prova que ele já havia decidido se converter. O problema é que Veyne, 80 anos, renomado historiador francês, arqueólogo e escritor prolífico tem uma visão de Constantino quase hagiográfica, jamais duvidando que a conversão foi uma "epopeia pessoal" baseada na fé pura, desinteressada.

Por outro lado, historiógrafos do mesmo talhe de Arnold H. Martin Jones, e Norman Hepburn Baynes, se não duvidam do importante papel do imperador na biografia do cristianismo romano, deixam abertura a desconfianças quanto à sua personalidade e à sinceridade da sua conversão, que teria razões políticas e ideológicas. Não é o pensamento de Veyne: quando toca em algumas delas, faz uma defesa débil e evasiva, não admitindo qualquer deslize na conduta de Constantino, que chama de "presidente da Igreja" e "salvador da humanidade".

Claro que um assunto tão polêmico como esse é infindável, mas especular é sempre saudável. Abstraindo-se a obsessiva exaltação de Constantino, Veyne confirma ser o historiador que está entre os mais indispensáveis da sua geração. O leitor dispõe de um painel confiável sobre aquele período, e no apêndice tem uma aula magna sobre as contradições do judaísmo antigo. Veyne lembra que os cristãos daquela época pouco se diferenciavam dos primitivos e, como tal, viviam em comunidades pacíficas, sem questionar a obediência aos seus superiores. Haveria, nessa conjuntura, lugar para a insubordinação e anarquia?

Sim, afirma Jacques Ellul (1912-1994) em Anarquia e Cristianismo (1991), ao abordar o comportamento dos cristãos nos três primeiros séculos da sua história, período que antecedeu a conversão de Constantino. Ellul, herói da Resistência, historiador e sociólogo francês com mais de 40 livros publicados, aventura-se no terreno pantanoso da vocação do cristianismo para o anarquismo. Fiquemos apenas em dois exemplos: nem o misticismo de Tolstoi nem o niilismo de Henri Barbusse os salvaram da armadilha das inconclusões.

Ellul também não saiu "ileso" da sua aventura. A defesa que faz da anarquia não escapa, como tantas outras, do sonho de um mundo ideal, que ele mesmo admite, impossível de existir. Mesmo assim, diz, é preciso "tentar uma objeção contra tudo": sua utopia, dentro do ideário dos anarquistas, imagina uma sociedade sem impostos, polícia e, obviamente, sem Estado (governo, como a própria palavra significa), ou como escreveu Bakunin, "o Estado é um enorme matadouro, um vasto cemitério" onde as forças ativas de um país deixaram-se enterrar pacificamente.

Afirma Ellul que a leitura da Bíblia, "melhor compreendida, aponta para a anarquia". Some-se a isso o uso frequente do verbo "entrever" e sinônimos e se chegará ao que o autor pretende: que a Bíblia não deixa dúvida de que a vocação dos cristãos primitivos é anárquica, e que o próprio Jesus, com suas supostas atitudes de vassalagem aos governantes deixou claro que "só vale a pena se submeter se for de modo ridículo". Em resumo: cabe ao leitor concordar com o autor que a sociedade cristã primitiva era avessa a qualquer forma de comando, ou admitir que ele se rendeu à estreiteza da interpretação pessoal do texto bíblico como a única verdadeira.

J. C. ISMAEL É AUTOR, ENTRE OUTROS LIVROS, DE THOMAS MERTON, O APÓSTOLO DA COMPAIXÃO

(T. A. QUEIROZ) E INICIAÇÃO AO MISTICISMO CRISTÃO (NOVA ERA/RECORD)

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