Três horas com paul, em Londres

Plateia emocionada de 40 mil pessoas não deixava ex-beatle ir embora

Flavia Guerra, O Estado de S.Paulo

30 de junho de 2010 | 00h00

O cenário não poderia ser melhor. Em pleno Hyde Park, no coração de Londres, logo após a derrota da Inglaterra para a Alemanha pelas oitavas de final da Copa do Mundo, quando a cidade, ainda que ensolarada, curtia uma certa tristeza pela derrota, Paul McCartney entra no palco do Hard Rock Calling Festival (que começou no dia 25 e já contou com Pearl Jam, Elvis Costello e Stevie Wonder) disposto a fazer valer a máxima "quem canta seus males espanta".

Não fosse este um dos (quase) últimos shows a céu aberto do ex-Beatle para um grande público (segundo números oficiais, aproximadamente 40 mil pessoas pagaram cerca de 70 libras ? R$ 210 ? para assistir ao mestre Paul), a apresentação de domingo não passaria de mais uma das centenas que ocorrem em dezenas de festivais de verão na Inglaterra.

Mas Paul estava disposto a provar porque, aos 66 anos, ainda tem fôlego para levar sua plateia ao delírio. Às 19h30 (15h30 do Brasil), subiu ao palco com pontualidade britânica e começou a esquentar uma plateia que parecia ainda um tanto amortecida. Pausa depois da primeira música: "Antes de realmente começar, deixem-me olhar bem para vocês. Esta será uma noite muito especial."

E o que se seguiu confirmou a promessa. Como poucos, Paul é capaz de tirar da inércia até mesmo o mais preguiçoso dos fãs. Sejam eles ingleses ou não. Como não poderia deixar de ser em um show beatlemaníaco, a plateia era heterogênea e multi-idade. Pais, mães, filhos, netos. Ingleses, brasileiros, alemães, italianos? Mas a torcida era torcida, unânime, para o show ser memorável. E foi. No set list, muito bem equilibrado entre clássicos para agradar aos saudosos beatlemaníacos e sucessos pessoais com novas canções, não faltaram Got to Get You Into My Life, The Long and Winding Road, Hey Jude, Something, A Day in the Life, Give Peace a Chance, Let It Be...

Nada seria digno de nova nota não fosse exatamente a direção cuidadosa do show e o talento de showman de Paul que, combinados, transformam um espetáculo, cujo áudio deixava muito a desejar, em uma "história cantada da vida do músico". Antes de My Love, a declaração: "Esta eu escrevi para Linda (sua primeira mulher, que morreu de câncer em 1998). E dedico a todos os amantes desta plateia." Como bem sintetizou o fã inglês, "Paul poderia simplesmente subir no palco, cantar e cantar, ir embora e já estaria bom demais. Mas ele faz questão de explicar canção por canção. Cada uma faz está ligada a uma fase de sua vida. Este show conta a vida dele."

De fato. Pequenos grandes detalhes que, ao final, fazem netos e avós darem as mãos para cantar Hey Jude por 10 minutos, sem parar. E continuar mesmo depois que o cantor deixou o palco pela segunda vez, obrigando-o a voltar por mais outra hora inteira.

Após pequena pausa, retornou ao palco empunhando uma imensa bandeira da Inglaterra. Em dia de derrota, um tanto de patriotismo cai bem.

Já eram 22h18 quando o cantor tentou terminar pela terceira vez e mandou Helter Skelter, mas a plateia não deixava. "A gente tem que ir embora. A não ser que vocês queiram dormir no parque", disse Paul, que ouviu um sonoro: "Sim!" Para, finalmente, tentar expulsar o público, que nesta hora já pulava, dançava e não arredava pé, "Ob-la-di, Ob-la-da... Life goes on..." A vida continuava e o show não acabava.

Para terminar, claro: Sargent Peppers Lonely Heart Club Band e, clichê dos clichês: "And in the end the love you take.. is equal to the love you make." (O Amor que você ganha é o mesmo que você dá). Paul levou muito amor para casa neste domingo e avisou: "Até a próxima."

Quem sabe, com o fôlego inspirador, Paul tenha se animado com a bandeira brasileira que tremulava na plateia e se interesse em fazer, ao menos, uma última parada no Brasil. A ver.

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