Três grandes pianistas ao cair da tarde

Amilton Godoy, Nelson Ayres e André Mehmari se apresentam hoje para celebrar programa histórico da Rádio Eldorado

EMANUEL BOMFIM, O Estado de S.Paulo

29 de maio de 2013 | 02h13

Ao descer a escada que dá acesso ao palco, após encantar a quilométrica multidão da Virada Cultural, o pianista Amilton Godoy vê, correndo em sua direção, o senador Eduardo Suplicy. "Pensei que ele fosse me cumprimentar, me dar um abraço", descreve. Era o final do show, momento de euforia e consagração do artista. Suplicy, no entanto, mal enxergou aquele gigante da música brasileira a sua frente. "Roubaram minha carteira", se resumiu a dizer. A falta de decoro do senador tem relação com a extensão da cultura musical difundida hoje no Brasil. Ser invisível é algo relativamente comum para Amilton, mesmo com tudo que já postulou nos últimos 50 anos - isso inclui montar o Zimbo Trio e revelar ao mundo Elis Regina, só para citar alguns de seus feitos.

Lidar com certo anonimato também costuma fazer parte da vida dos colegas de profissão Nelson Ayres e André Mehmari. Hoje, os três estarão em pontos diferentes de São Paulo, no mesmo horário (18h), com a missão de resgatar uma atração que ficou famosa justamente por dar voz a "desconhecidos": Um Piano ao Cair da Tarde. Criado em 1958, no ano de fundação da Rádio Eldorado (FM 107,3), o programa se manteve no ar por mais de vinte anos, todos eles dedicados ao repertório de quem tem o piano como expressão artística. Até a década de 70, o ouvinte tinha acesso a uma seleção que partia dos vinis, dos mais variados gêneros. Depois, com a chegada do Estúdio Eldorado, sediado na rua Major Quedinho, no centro da cidade, a emissora do Grupo Estado passou a convidar pianistas para assumirem aqueles preciosos sessenta minutos de programação, a bordo de um Steinway meia cauda.

Godoy, já conhecido com o trabalho no Zimbo Trio, foi um dos primeiros a aplicar sua linguagem jazzística em gravações exclusivas. Ele também aproveitou para indicar à direção alguns de seus alunos, formados no Clam (Centro Livre de Aprendizagem Musical). Entre eles, estava a jazzista Eliane Elias, hoje amplamente celebrada nos EUA. "Até o Milton Nascimento foi convidado para fazer um programa de piano. Ivan Lins também. A rádio abriu uma nova janela para os pianistas", ressalta. Nelson Ayres, em ação desde o começo dos anos 60, abraçou a oportunidade e foi outro importante nome a emprestar seu talento ao piano da Eldorado. "Cheguei a fazer dois programas. Um deles, só com músicas de Fats Waller", relembra. "Era sempre um barato quando chegava o final do dia. Você já pensava: mas quem será hoje? Você ligava e às vezes pegava um de seus ídolos, às vezes eram nomes inéditos e às vezes tinha coisas chatas, mas fazia parte. O importante era que tinha uma diversidade de estilos."

Mais jovem entre os três, André Mehmari não chegou a fazer parte da história do Um Piano Ao Cair da Tarde, mas tem em sua carreira uma estreita relação com a Rádio Eldorado. Em 1998, com meros 19 anos, ele foi o vencedor da primeira edição do Prêmio Visa, promovido pela emissora. "Eu já era conhecido no meio musical, mas foi o prêmio que me apresentou ao público pela primeira vez. Meu primeiro disco solo nasceu dali e numa época em que não havia a difusão da música pela internet", destaca. Para sua "estreia" na atração pianística, ele preparou um repertório com temas de Tom Jobim e Chico Buarque, além de faixas autorais. Mehmari irá se apresentar num palco montado no vão livre do Masp, enquanto Amilton estará nos arredores da Bovespa, no centro da cidade, e Nelson em frente ao MAM, no Parque do Ibirapuera.

Em comum, além da predileção pelo piano, o trio tem o improviso como motor de uma música que dialoga com o erudito e o popular. Uma característica herdada do jazz e da música brasileira pós-bossa nova, principalmente. "Eu recebi pronto o trabalho do Amilton e do Nelson, que depuraram essa linguagem brasileira no piano", elogia Mehmari. "Não é tão importante o que nós vamos tocar, mas como tocamos", explica Godoy, que pretende mostrar canções de Milton Nascimento. Ayres, por sua vez, vai de Villa-Lobos ao argentino Ariel Ramírez. Onde quer que seja, a certeza é uma só: nunca em São Paulo, ainda mais na véspera de feriado, um dia irá repousar tão feliz como esta pianística quarta.

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