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Três gerações de mulheres expõem os dramas da fronteira entre Finlândia e Estônia em livro

'As Vacas de Stalin', obra de estreia de Sofi Oksanen, enfim chega ao País; obra posterior da autora foi publaca em 2012

Manoela Sawitzki - Especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

27 Setembro 2013 | 19h53

Em 2008, a escritora finlandesa Sofi Oksanen, aos 31 anos, entrou para a privilegiada lista dos fenômenos editoriais europeus não apenas de vendas mas também de prestígio junto à crítica. Seu terceiro romance, Expurgo, publicado no Brasil em 2012 pela Record, logo seria vendido para 43 países e acumularia prêmios, como o Finlandia Award. Foi um caminho vertiginoso desde a estreia como romancista, meia década antes, com As vacas de Stalin, que enfim chega ao País.

O primeiro romance de Oksanen inaugura um mergulho que se prolongou por outros dois livros, nas zonas fronteiriças sombrias entre capitalismo e socialismo, regimes totalitaristas e democráticos, e nos abismos culturais e sociais que podem dividir territórios vizinhos. Os contrastes entre a Finlândia e a Estônia, que passou por inúmeras ocupações ao longo de grande parte do século 20, são explicitados por três gerações de mulheres numa curva temporal dos anos 1940 aos 2000. Os percursos de Sofia, Katariina e Anna compõem uma panorâmica de causas e efeitos do domínio soviético (que se deu logo após a ocupação nazista) sobre os estonianos, e a hostilidade que enfrentaram os que migraram para “o outro lado”.

Houve aqueles que, vigiados, sob ameaça de expropriação, violência, prisão, desterro na Sibéria ou morte, se renderam e colaboraram para a perseguição de compatriotas. E, em oposição, os que resistiram e buscaram formas de se distinguir do invasor, preservar as próprias raízes e lutar pela independência. Na família central do enredo, há guerrilheiros que se refugiavam em florestas e mulheres, como Sofia, que, sob o véu de mãe, dona de casa e trabalhadora rural, tornaram tal resistência possível. E outras, como Katariina, que desistiram.

O romance é estruturado de forma fragmentada, com saltos no tempo e no espaço. É de Anna a voz que se alterna confusamente entre primeira e terceira pessoa. Filha de Katariina e neta de Sofia, ela é orientada desde criança a negar e esconder a origem mestiça, que a colocaria em desvantagem. Nascida na Finlândia, depois que a mãe deixou a Estônia para se casar com um finlandês, passa seus 25 anos atravessando o golfo.

A formação de Anna acontece no ir e vir entre dois mundos. O sentimento de inadequação é permanente. Seu corpo, incapaz de se reconhecer e sustentar a história que o precede e a herança que lhe adensa, caminha para o desaparecimento pela bulimia e pela anorexia. Ao mesmo tempo, o corpo é tudo, precisa ser tudo, na total falta de sentido, no esmagamento do eu e da alteridade (todos são inimigos em potencial). E esse corpo precisa ser belo, deve ser magro. Sessões frenéticas de comilança satisfazem os desejos “perigosos” e são seguidas de sessões catárticas de vômito. Expele-se assim todo o mal que se precisou engolir. Drogas lícitas e ilícitas e sexo anônimo ajudam a enfrentar a fome existencial que reina entre esses movimentos. “Se o corpo se recusa a obedecer, resta apenas um jeito de se mover: ficando menor e encolhendo. Quilo por quilo, minha fuga é a única rota de escape quando os pés se recusam a andar.”

Há algo de excessivo na voz de Anna, na repetição dos conflitos em relação à comida, na mística que constrói em torno do impulso bulímico, e nos dilemas com o namorado Hukka. A mão da estreante pesa, e, no excesso, questões perdem força. Às vezes, tem-se a sensação de que a autora empanturra o leitor como sua protagonista se empanzina de guloseimas.

Um narrador distinto se ocupa de Sofia e Katariina. São relatos que dão conta da opressão do stalinismo, da fome e da semiescravidão imposta pelo regime da degenerescência que cresce no interior do socialismo que se afasta da utopia. Katariina aprende a tirar proveito da abundância capitalista e da penúria socialista para fazer negócios e conseguir favores. Mesmo à distância e cercada de perigos e traições, colocando permanentemente em risco a conquista de um visto finlandês definitivo, continua a zelar pela matriarca Sofia. E faz o possível para apagar os rastos do passado.

O sexismo em ambos os universos é brutal, e as mulheres tornam-se vítimas e carrascas de si mesmas. Se na Finlândia não existe separação entre estonianas e russas, e todos os estereótipos que estigmatizam as segundas recaem sobre as primeiras, Katariina se dedica exaustivamente a instruir a filha a se distinguir “daquelas lá”. Batom vermelho, minissaia, casaco de pele, salto alto, vestir-se de preto e vermelho são coisas de prostituta, de russas. E é assim que condena Anna a não se sentir capaz de ser como estas nem como aquelas, ao próprio desfazimento, extinguindo-se no silêncio, reencenando no corpo a fome dos antepassados.

MANOELA SAWITZKI É FICCIONISTA, AUTORA DO ROMANCE SUÍTE DAMA DA NOITE (RECORD)

AS VACAS DE STALIN

Autora: Sofi Oksanen

Tradução: Pasi Loman e Lilia Loman (Record, 420 págs., R$ 50)

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