Três edições do romance "Os Maias" nas livrarias

A boa nova é que, estimuladas pela minissérie, algumas editoras resolveram relançar no mercado Os Maias, romance considerado a obra-prima de Eça de Queirós (1845-1900). O leitor pode encontrar nas livrarias três edições do texto, a da Ediouro, a da Nova Alexandria e a da L&PM. Pouco importa a que escolha pois, em qualquer formato ou tipologia, Eça é sempre Eça. O destaque, no entanto, fica para a Ediouro por seu capricho e, principalmente, pelo esclarecedor prefácio de Izabel Margato, além das fotos de Eça que ilustram o texto.Mas, enfim, ler Os Maias é como visitar um universo em tese desconhecido, porém estranhamente familiar. O livro é daqueles que podem ser comparados a uma catedral. Deve ser examinado em seu conjunto e, depois, em seus detalhes. A primeira impressão é que se está entrando em um edifício majestoso. Mas são páginas que se deixam ler. Uma palavra conduz à outra e a história flui. O prazer que se sente não tira a sensação (às vezes meio sufocante) de quem está descendo uma escadaria muito funda, e respira com certa dificuldade. Felizmente - e nisso Eça é um mestre - a ironia e o bom humor comparecem nos momentos certos para refazer as forças do leitor.Como observa Izabel Margato, tudo, na carreira de Eça, parece confluir para Os Maias. O livro faz parte do projeto Cenas da Vida Portuguesa (aliás, este é o seu subtítulo), do qual também fazem parte O Crime do Padre Amaro, O Primo Basílio e A Capital. No entanto, nesses primeiros romances o olhar do escritor está voltado para a pequena burguesia e o baixo clero. Agora, em "Os Maias", é do andar de cima que se trata. Da alta burguesia. Do estrato superior de uma sociedade que o autor considera atrasada, provinciana, hipócrita, predatória. Daí a sensação de estranho reconhecimento que a leitura de um romance escrito no final do século 19 produz em brasileiros que começam agora a experimentar um novo milênio.De toda forma, se Os Maias é esse observatório poderoso de uma classe em ruínas, é, também, uma fantástica história de amor, desejo, confiança, traição - e incesto. Deve ter sido todo esse paroxismo passional que despertou o interesse da Globo em adaptar o texto. Esse vai-e-vem da paixão entre Carlos da Maia e Maria Eduarda é descrito em detalhes.Acompanhado minuciosamente, do nascimento até quando murcha, depois de uma revelação fatal que não se sabe como será tratada pela emissora. Enfim, há um mistério que atravessa o texto, e a arte do roteirista será ir revelando aos poucos o que talvez ainda seja um choque para a moral contemporânea.Um parêntese. Nem sempre a TV respeita a opacidade pretendida pelos autores. Por exemplo, Guimarães Rosa, em Grande Sertão: Veredas, recomenda que não se revele o segredo do romance para deixar aos novos leitores o prazer da descoberta. Bem, quando a Globo coloca uma atriz como Bruna Lombardi no papel de Diadorim está fazendo pouco caso do pedido do romancista.Mas, enfim, uma versão respeitável de Os Maias terá de trabalhar não apenas nessa história de amor como nos grandes painéis sociais traçados por Eça. Há, no romance, uma longa introdução, que reconstitui a história da família Maia até que o tempo ficcional seja estabelecido e a saga de Carlos da Maia possa finalmente começar. Há a idéia, no autor, de que a ancestralidade tem alguma coisa a ver com o presente, da mesma forma como o meio determina as ações dos personagens. Não há efeito sem causa. E as causas devem ser buscadas lá atrás.Nesse encadeamento, nessa ordem de razões, entra a paixão, mas entra também a análise, e, sobretudo, um certo espanto em relação à vacuidade de uma classe social ociosa, representada, de maneira exemplar, pelo médico sem clientes Carlos da Maia. Tudo o que se pode desejar é que essa complexidade da tessitura ficcional de Eça de Queirós não esteja de todo ausente na minissérie da Globo.

Agencia Estado,

05 de janeiro de 2001 | 16h51

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