Três é bom?

Três é bom?

Anos atrás, eu e um amigo também escritor nos apaixonamos pela mesma mulher, uma atriz de teatro com voz marcante, um corpo perfeito, boêmia, culta, poeta nas horas vagas, que canta, dança, sapateia, faz mágica, joga pôquer, tranca e gamão, e tem um monótono figurino no armário, apenas minissaias e botas.

MARCELO RUBENS PAIVA, O Estado de S.Paulo

27 de março de 2010 | 00h00

Era o tipo de mulher ideal para um escritor, pois sabe ser caseira e paciente na hora certa e baladeira e inconveniente na incerta.

Ela estava no elenco de peças que ensaiávamos. Às tardes, comigo, às noites, com ele. Às madrugadas, íamos comer, beber, conversar, rir e nos fotografávamos abraçados.

Até confessarmos simultaneamente o nosso amor.

Nós dois descobrimos quanto ela nos inspirara. Quanto aqueles ensaios giraram em torno dela, como ocorrera nas leituras. Talvez, até, como profetas, quanto ela se encaixara em nossos personagens, que pareciam terem sido escritos apenas para ela, antes de a escalarmos. Nenhuma outra atriz conseguiria fazê-los.

E, juntos, a pedimos em casamento. Ela adorou. Mas, claro, profissionais que somos, sabemos que uma relação amorosa não pode se desenvolver numa pré-produção. E enquanto ela descobria os personagens. Talvez depois da estreia. Nossas atenções devem estar focadas apenas no propósito e difícil missão de levantar um espetáculo.

Estrearíamos na mesma época. Na mesma cidade. Minha peça seria exibida aos fins de semana. A dele, no horário alternativo (terças e quartas).

Enquanto não estreávamos, bolamos os três uma forma de como lidar com aquele impasse. Meu amigo propôs.

Depois de duas semanas de peça, tempo suficiente para ganhar voo próprio, alternaríamos nosso amor, dividiríamos a rotina sem culpa, ciúmes. Dia sim, dia não, ela moraria com um de nós. Dias pares com ele, dias ímpares comigo.

Mas ela reclamou que precisaria de um dia de folga, afinal, mulheres têm seus misteriosos afazeres e desejos secretos, amigos gays, amigas tagarelas sempre em crise na relação e em busca de conselhos. E muitos ex para lidar.

Então, decidimos. Segundas, quartas e sextas, com ele. Terças, quintas e sábados, comigo, dias que eu não tinha natação. Domingo era a folga dela. Que iria para a sua casinha viver o seu mundo paralelo e fazer sobrancelha, depilação, massagem linfática, pés e unhas.

Desenvolvemos melhor o projeto ambicioso. Não iríamos buscá-la na casa do outro, para evitar encontros desconfortáveis. Pagaríamos a sua gasolina. Faríamos um inventário dividindo nossos bares e restaurantes preferidos. Metade para ele, metade para mim.

Mas o mais importante. As comparações estavam terminantemente proibidas. Jamais ela revelaria detalhes da noite anterior, em que estava com o outro.

Não diria o que fizeram, assistiram, comeram, se ele prefere bem ou mal passado, balsâmico ou limão, com gelo ou sem, se ronca, dorme de conchinha, se é mais carinhoso ou mais estilo local de um forró de Trancoso, se gasta tempo com preliminares, dorme de pijama, sentiu frio ou calor na noite anterior, prepara o café da manhã, escreve de dia ou de noite, tem um Mac ou um PC, usa Aurélio ou Houaiss, prefere Beckett ou Brecht, jazz ou blues, Seinfeld ou Friends, House ou Californication, Patrícia Poeta ou Ticiana Villas Boas, se assina um jornal ou lê pela internet, se twitta assim que acorda, quais blogs lê, se coloca despertador para acordar, escova os dentes após as refeições, usa cuecas, meias, anda pela casa de Havaianas legítimas ou não, ou descalo, se tem gato ou cachorro, rinite alérgica, colesterol alto, pressão baixa, qual o tipo sanguino, se adoça o café, lava a louça só no dia seguinte, arruma a cama, liga do fixo ou do celular, em qual banco tem conta, se compra DVD pirata ou é contra alimentar o crime organizado, se eles tomam banho juntos, lê quadrinhos, se também odeia axé, zappeia muito, ou nem ligam a TV, se ele tem insônia, frita na cama ou se levanta e vai fazer um chá de erva-cidreira, ou prefere camomila, se prefere dinheiro ou cartão com chip, quantos pontos tem na carteira, se usa iTunes ou Media Player, se passa fio dental todos os dias, põe a camisinha ou pede gentilmente que ela seja colocada, se a impressora é a laser ou jato de tinta, compra flores pra casa, quais móveis da Tok & Stock tem, carrinhos de brinquedos na estante, clássicos, que compra em sebos, cinzeiros roubados com o logo dos bares, se bebe água em copos de requeijão, prefere do filtro ou mineral, com gás ou sem, gelada ou sem gelo, se o refri é light ou zero, em garrafa ou em lata, se prefere cerveja no copo ou vale na lata, se tem manias, humor, se fala sacanagens na cama, se beija de olhos abertos.

E, por último, imprescindível, para que tudo desse certo. Jamais saberíamos o número de vezes que ela atingia o clímax com o outro.

Estreamos as peças. Ela mandou bem. Foi elogiadíssima por todos. Nos emocionou. Se entregou às personagens. Fez de verdade.

E começou a namorar outro ator, de outra peça, de um teatro maior, que ficou muito mais tempo em cartaz e, detalhe irrelevante, fez mais sucesso do que as nossas. Galã que a tem todos os dias, exceto aos domingos, que é nosso na mesa de um bar, em que continuamos nos fotografando abraçados.

Escritores viajam...

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