Três clássicos de Bergman em DVD

São momentos privilegiados dessaarte chamada cinema. No jardim de sua infância, o velhoprofessor Isaak Borg, de Morangos Silvestres, chama pelamulher que amou: "Sara, Sara, Sara." Em Sonata de Outono,uma mãe que talvez nem tenha consciência da sua crueldadesubmete a filha a uma dolorosa humilhação. A mãe é pianistafamosa, a filha toca uma sonata ao piano. A mãe a ouve,exaspera-se e senta-se ao piano para mostrar como uma sonatadeve ser tocada. E em A Flauta Mágica, a queda da rainha danoite que precede o alegríssimo final vem embalada em cores esons tão belos, em movimentos de câmera tão requintados que oresultado é absolutamente mágico, como a flauta. O próprioMozart ficaria encantado. Três vezes Ingmar Bergman. Os filmes de 1959(Morangos), 1975 (A Flauta) e 1978 (Sonata) estãosendo lançados em DVD pela Continental. Todos possuem, entre osextras, biografias e filmografias. Morangos traz menus animadose sonoros, Sonata reedita o trailer de cinema. E são todosimperdíveis para quem quiser formar uma deveteca de qualidade.Mesmo que não esteja interessado em adquiri-los, você podealugá-los nas locadoras. Dê-se esse raro prazer. Você vaiconfirmar mais uma vez, como se ainda fosse preciso, que Bergmané um dos grandes do cinema mundial. Hollywood, com sua indústria infantilizada de efeitosespeciais, faz filmes para o público sonhar. Bergman gosta dedizer que filma para provocar angústia no espectador. Surgiu edesenvolveu sua obra extraordinária numa cinematografiaperiférica, a sueca. Mas não se pode dizer que teria sidoescorraçado em Hollywood. Recebeu três vezes o Oscar: em 1960,por A Fonte da Donzela, em 1961, por Através de umEspelho, em 1983, por Fanny e Alexander. "Faz filmes" éum modo de dizer. Logo após o último, Bergman anunciou queestava parando com o cinema, para dedicar-se só à direçãoteatral. Continuou escrevendo roteiros, como o de Infiel,que deu à sua ex-mulher, Liv Ullman, para dirigir e ela o fezbem, mas com excessivo respeito. Nestes quase 20 anos, paraadestrar os músculos, fez um telefilme aqui, outro ali.Anuncia-se que vai fazer outro ainda este ano. O mistérioBergman continua. Morangos Silvestres é um de seus melhores filmes,senão o melhor. O road movie existencial de Bergman narra aodisséia do professor Borg, interpretado pelo lendário diretorVictor Sjostrom, que atravessa os planos da realidade, damemória e da imaginação para purgar-se de uma vida sem amor. Ofilme incorpora técnicas narrativas que já haviam sido testadaspor outro grande do cinema sueco. Em Senhorita Júlia, de1951, que adaptou da peça de August Strindberg, Alf Sjoberg fezpassado e presente coexistirem nas mesmas imagens. Bergmanrepetiu o procedimento em Morangos. O velho professor Borgentra numa sala de sua antiga casa, agora destroçada.Imediatamente, sem que ele saia de cena, voltam as figuras doseu passado, num efeito estético poderosamente dramático, alémde perturbador. Sonata precedeu em dois anos a realização de Gentecomo a Gente, de Robert Redford, que venceu o Oscar de filme edireção de 1980. São dois filmes completamente diversos, emtécnica e estilo, mas é possível fazer uma ponte entre ambospelo tema que abordam. São histórias de pais que não gostam dospróprios filhos, praticando uma violência surda contra eles. Alição de piano de Ingrid Bergman para Liv Ullman em Sonata éum desses momentos que só os maiores diretores conseguem criar.E, finalmente, há A Flauta, o mais raro desses filmes donovo pacote Bergman. Raro porque é o que tem menos circulado,desde a estréia, nos anos 70. Para alguns privilegiados, seráuma redescoberta. Para a maioria do público, uma descoberta,realmente. D. Giovanni - Nas pegadas de Bergman, outro grandediretor, o norte-americano (radicado na Europa) Joseph Losey,rodou em 1979 seu filme baseado em D. Giovanni. É a mais populare, ao mesmo tempo, a mais perfeita das óperas mozartianas. Loseydispôs de pouco tempo para preparar seu filme. Rodou-o quase atoque de caixa. O mais incrível é que a obra cinematográficaproduzida nesse regime de urgência faz integralmente justiça àperfeição da obra musical. É uma poderosa demonstração devirtuosismo do diretor, que se beneficiou de um elenco de sonho(Kiri Te Kanawa, Raimondi e Van Dam) e também de cenáriosdeslumbrantes, que realçavam, com a suntuosidade dos palácios, aplasticidade da realização. Aqueles anos, os 70, foramprivilegiados, cinematograficamente falando, para osmozartmaníacos. A grandeza de D. Giovanni havia sido precedidapela magia da Flauta. Bergman recusou todo apelo àmonumentalidade. Optou por ser leve até o limite da ingenuidade.Fez, para isso, várias alterações na obra de Mozart. Modificou oenredo, especialmente o do segundo ato. Correu, desta maneira, orisco de desagradar aos puristas, mas até esses terminaram porrender-se: Bergman traiu para ser fiel. "Sua Flauta" é mágicacomo a de Mozart. Se você é mozartiano de carteirinha sabe de cor ahistória da ópera. Mesmo assim, vale lembrá-la. Perdido nafloresta, perto do templo de Ísis, o príncipe Tamino ficasabendo, por meio de três misteriosas senhoras que o salvam deuma serpente, que a filha da rainha da noite, Pamina, estáprisioneira de Sarastro, o grão-sacerdote. Acompanhado de umcaçador de pássaros, Papageno, sai em busca da moça. Bastouolhar um retrato dela para Tamino apaixonar-se. Depois de muitaaventura, a dupla descobre que Sarastro está longe de ser ummonstro. Ao contrário do que diz a rainha da noite, é uma ótimapessoa. Mais aventuras: Tamino e Papageno submetem-se a provasde coragem, o bem derrota o mal e a rainha da noite é remetidacom seu séquito para as trevas eternas. Bergman fez o filme para a TV sueca. Ele planejavafilmar no Teatro Drottingholm, construído no século 18 paradiversão do rei Gustavo III. Descobriu que o palco era muitofrágil para suportar o pesado maquinário indispensável àfilmagem. Reconstruiu o teatro em estúdio. Isso lhe deumobilidade e ele filmou a ópera como uma encenação teatral,utilizando telões e cenários móveis. O conceito fica claro logona abertura, feita de closes do rosto dos espectadores. Para umcineasta que ficou famoso fazendo filmes sobre a dor de dentesna alma de seus personagens - definição dele mesmo -, não deixade ser curioso que Bergman, que tão pouco utilizou a música emseus filmes, preferindo destacar a musicalidade das palavras,tenha se entregado com tanto entusiasmo à alegria da óperamozartiana. Por sua feliz combinação de imagem e som, A FlautaMágica prova que até o autor que já pediu que venham a gravar,em sua lápide, "foi uma ferida e um fardo", conseguiu aplacara neurose que o consome, na vida como na arte, para ter, aqui umfascinante e irrepreensível momento de sonho.Serviço - Morangos Silvestres (Smultrostallet). A Flauta Mágica(Die Zauberfloete). Sonata de Outono (Horstsonat). Todos DVDs daContinental, disponíveis nas locasdoras e lojas especializadas.R$ 40 cada um.

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