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Lúcia Guimarães
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Três Brasis

Empalhar cadeira custa uma nota em Manhattan. Estofar também, qualquer conserto que requer mão de obra pode nos levar à conclusão de que é melhor comprar um móvel novo, ainda que de qualidade inferior.

Lúcia Guimarães, O Estado de S.Paulo

30 de novembro de 2015 | 02h00

Minha vida de expatriada é dois meses mais velha do que a democracia brasileira. Embarquei de uma ditadura mas, quando o contêiner com a mudança da minha família foi liberado num porto aqui, o navio já ia voltar para o país governado por José Sarney.

Não trouxe muita coisa porque pensava em ficar um ano, talvez um pouco mais. Só uma peça no contêiner era nova, uma poltrona de palhinha comprada à prestação numa loja tradicional de Ipanema. A loja continua lá. Mas a palhinha do assento afundou há um ano, justamente sob um membro mais recente da família, que ficou muito sem graça. Achei que devia fazer um esforço para não descartar a poltrona. O primeiro orçamento, por telefone, foi tão alto que o empalhador não resistiu e caiu na gargalhada comigo. Por que não joga fora?, perguntou impaciente a faxineira de Minas Gerais que continua a passar algumas horas por mês aqui por puro senso de lealdade, já tem um portfólio de clientes ricos que a permite subcontratar parte do trabalho.

Expliquei que a poltrona, apesar do design pouco inspirado, me acompanhava desde o Rio e merecia uma chance de reabilitação. Depois de uma busca na internet, descobri um empalhador irlandês que cobrou um quarto do preço do nova-iorquino e fez um trabalho de artesão.

Testemunha de quatro endereços em que morei nesta cidade, a cadeira estreou num apartamento semimobiliado cujo contrato de aluguel me coube com uma rapidez intrigante para o competitivo mercado imobiliário local. Anos depois, compreendi o motivo da preferência. O proprietário, cuja família ocupava dois pisos do edifício de cinco andares, uma bela townhouse de 1860, num momento de candura, deixou escapar que tinha escolhido uma brasileira desembarcada naquele mesmo dia porque evitava inquilinos nova-iorquinos argumentativos e exigentes. Ou seja, uma latina recém-chegada não ia criar caso.

Naqueles anos, ser brasileira atraía curiosidade, elogios à Bossa Nova e também uma espécie de compaixão tamanho único reservada ao Terceiro Mundo. Eu tentava explicar que tinha tido uma experiência de classe média e que tinha ouvido mais jazz americano ao vivo no Rio do que muitos dos brancos nova-iorquinos. Mas algumas pessoas pareciam preferir seus clichês.

Na década passada, a experiência era outra. Você é do Brasil? Como estão ricos, hem? Eu tentava explicar que havia uma conjuntura econômica favorável e que um esforço de transferência de renda tinha retirado milhões da pobreza mas a educação, os serviços públicos e as instituições estavam muito longe de justificar tanto oba, oba. Algumas pessoas pareciam preferir seus clichês.

Agora, conversas com americanos começam em tom de pêsames – “O que aconteceu com vocês?”. Uma velha amiga nova-iorquina que se mudou para a Califórnia telefonou na quinta-feira, pouco antes de se sentar com a família para fazer a mais importante refeição do ano, a de Ação de Graças, e se lançou num longo lamento: “Que sufoco vocês estão passando, todo dia leio uma notícia ruim do Brasil, corrupção, violência, desemprego, meio ambiente, não acaba nunca?”.

Fui associada a três Brasis desde a redemocratização. O primeiro, recém-saído da ditadura, se beneficiava de baixas expectativas. O segundo era falso como o Brasil do marqueteiro de Feira de Santana. Infelizmente não tenho encontrado muito ânimo para contestar o terceiro, o produtor de lama metafórica e real.

Quando sou a única brasileira em situações sociais, recebo a cobrança reservada ao mau estudante que está demorando uma eternidade para concluir um curso superior. Os militares não saíram do poder há décadas? Com uma economia daquele tamanho e tantos recursos? Não era um partido progressista? E a pergunta mais difícil: já surgiu uma alternativa?

Poderia responder que valeu a pena esperar e restaurar a sólida poltrona carioca. Mas deixa pra lá.

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