Três amigas e uma sátira à arquitetura desumana

Um grupo de tediosos turistas visita o castelo inglês de Fustian House, onde nada de relevante aconteceu na história, a não ser uma única visita da rainha Elizabeth I, que tropeçou na escada e quase caiu. Lettice, a guia, narra a modesta e burocrática versão real. Ninguém se interessa. Em seguida, ela embeleza a cena: na sala seguinte, romantiza a quase queda da rainha nos braços de um cavalheiro enamorado. O público adora, o que incentiva Lettice a acrescentar mais cor e detalhes humanos ao seu relato, delirando sobre fantasias rocambolescas de amor e honra. "Ela personifica a revolta contra o que é novo, falso e feio", comenta a atriz Rosamaria Murtinho, que interpreta a guia iconoclasta em Letti e Lotte, comédia escrita em 1987 pelo inglês Peter Shaffer, que estréia nesta sexta-feira no Teatro Renaissance. Seu entusiasmo com o texto foi tamanho que, depois de assistir à montagem londrina, estrelada por Maggie Smith, comprou os direitos.Trata-se de uma sátira ao mundo atual de arquitetura desumana, explorando a tradição e a beleza de um passado glorioso, destruído pelos horrendos traços modernos e pela invasão de eletrônicos. O sucesso, porém, não é unânime - apesar do fascínio de alguns turistas, outros ficam incomodados com as performances da guia e reclamam no Preservation Trust, responsável pela conservação dos monumentos ingleses. Convocada a dar explicações, Lettice é sabatinada por Charlotte Schoen, uma funcionária austera interpretada por Nathalia Timberg. Apesar de defender sua antipatia pela arquitetura brutalista do pós-guerra, a guia é demitida. "A revolta com as atitudes de Letti, no entanto, é apenas uma couraça de Lotte, que ao final se rende e confessa ser uma arquiteta frustrada que, na juventude, colocava bombas em prédios novos", comenta Nathalia.O entusiasmo das atrizes com o projeto é contagiante - embora amigas há muito tempo, nunca atuaram juntas no teatro, meio em que conseguiram se manter em evidência ao longo de anos de mudanças radicais nas artes cênicas. Mais: a direção é de Bibi Ferreira, uma das artistas de maior expressão do teatro brasileiro. "Eu já desejava dirigir uma comédia sofisticada e, para isso, necessitava de atrizes que tivessem o timing certo para esse tipo de texto", conta a diretora. "E encontrei os nomes certos."Detalhes - Bibi tem um estilo peculiar de dirigir. Não gosta, por exemplo, de estender as sessões de ensaio por várias semanas. "É perigoso, pois os atores podem criar muita ansiedade, o que ´apodrece´ o espetáculo", justifica. Também conduz os atores por meio de detalhes. Em algumas cenas, pediu a Nathalia Timberg que apenas movesse a cabeça e não o corpo. "Como estamos acostumadas à televisão, a tendência era mexer-se por inteiro", comenta a atriz.A longa amizade entre as três favoreceu o espetáculo. Bibi conhece Rosamaria desde a década de 60, quando trabalharam nos teleteatros da extinta TV Excelsior. Já Nathalia Timberg estreou no teatro sob sua direção, em 1954, com Senhora dos Afogados, de Nélson Rodrigues. "Os atores estavam excepcionais e foram ovacionados", lembra-se a diretora."Quando o Nélson subiu ao palco, porém, recebeu uma vaia fenomenal, o que obrigou o elenco a se refugiar em um canto."O trabalho de direção encantou Rosamaria e Nathalia. "Ela é extremamente generosa e passa uma sensação de firmeza que permite a qualquer uma se atirar no escuro", comenta Rosamaria que, ainda impressionada com a atuação da inglesa Maggie Smith, não sabia como compor o papel de Letti. Depois de ler a peça, Bibi indicou o caminho. "Pense na pureza da Eva Todor", diz. "Foi como se o perfil da personagem clareasse para mim", afirma a atriz.Outro problema resolvido foi a versão em português do texto, feita por Maria Adelaide Amaral. No original, o texto é carregadol de personagens e situações muito inglesas. A solução foi eliminar os trechos extremamente históricos e não ser tão preciso nas localizações de endereço. O detalhismo, aliás, incomodou os próprios ingleses. "Lembro que, quando assisti à montagem londrina, o casal que estava ao meu lado se perguntava sobre os personagens que eram citados", conta Rosamaria.Há cenas impecáveis, porém, que foram mantidas: ao ser convidada a dar explicações sobre seu método inusitado de trabalho, Letti surge na sala de Lotti fantasiada de Mary Stuart da Escócia, com imensa capa preta e chapéu de espadachim. "Vim para ser julgada e condenada", diz, repetindo a célebre frase real.O inglês Peter Shaffer vive hoje em discreta obscuridade em Nova York e notabilizou-se a partir da década de 70, quando Equus e Amadeus alcançaram um sucesso retumbante e ganharam versões cinematográficas. No original, Letti e Lotte chama-se Lettice and Lovage, em que o autor brinca com uma combinação de palavras: love (amor) e rage (raiva) formam a misteriosa bebida dos tempos elizabetanos (mistura de mel, vodca e uma erva), que Letti oferece à amiga para brindar a amizade. "É um momento sublime e um dos meus preferidos, pois trata de um assunto atualmente muito abandonado", afirma Nathalia.A peça teve uma montagem brasileira em 1990, chamada Quaff, Tempo de Emoções, com Maria Ferreira e Gabriela Rabelo nos papéis principais, sob a direção de José Renato. A atual produção conta ainda com a participação especial de Nélson Dantas e as atuações de Magaly Evangelista e Rodrigo Mendonça.Letti e Lotte - Comédia. De Maria Adelaide Amaral. Direção Bibi Ferreira. Duração: 1h30. Sexta e sábado, às 21 horas; domingo, às 18 horas. R$ 40,00 (sexta e domingo); R$ 50 00 (sábado). Teatro Renaissance. Alameda Santos, 2.233, tel. 3069-2233. Até 17/12.

Agencia Estado,

07 de dezembro de 2000 | 18h38

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