Trem sem freio

Don Cornelius, o homem que fez o soul virar festa, morre aos 75 anos

JON PARELES , THE NEW YORK TIMES, O Estado de S.Paulo

11 de fevereiro de 2012 | 03h09

Com sua voz profunda, ternos elegantes, óculos de aviador e a presença de palco de um amadurecido fã da música, Don Cornelius era exatamente como a suave personalidade televisiva mostrada em Soul Train, programa criado, produzido, escrito e apresentado por ele de 1971 a 1993 e transmitido por diversas emissoras americanas nas manhãs de sábado. Por trás da sua mistura de elegância e entusiasmo havia uma missão cultural.

Cornelius, que morreu há duas semanas, aos 75 anos, fora jornalista e DJ em Chicago e, em 1970, deu o passo além que atraía muitos apresentadores das emissoras regionais: tornou-se o mestre de cerimônias de uma festa dançante depois da escola, com convidados saídos da fértil cena soul de Chicago.

Mas logo obteve alcance nacional, usando um formato de baixo orçamento: astros se apresentando num pequeno estúdio de TV enquanto dançarinos mostravam suas habilidades. Ele fazia breves entrevistas com os músicos e, entre os shows dos convidados, discos eram tocados enquanto dançarinos apresentavam passos nos trilhos de trem pintados no palco.

A maioria dos músicos era composta por negros americanos e o estilo era o soul, o R&B e, mais para frente, o hip-hop. (Roqueiros que se aventuravam no R&B, como David Bowie e Elton John nos anos 1970, também eram bem-vindos.) Num breve segmento chamado Scramble Board, os dançarinos revelavam no quadro os nomes de personalidades históricas entre os negros. Nas entrevistas, Cornelius poderia pedir a James Brown que dissesse algumas palavras a respeito da violência "nas nossas comunidades".

Mas, durante a maior parte do tempo, Cornelius não se ocupava de pregar a respeito dos direitos civis e nem das maravilhas da arte dos negros americanos. Ele os estava encarnando. Com um sorriso, ele encerrava cada programa desejando ao público "paz, amor e muito soul."

O Soul Train conservou a visibilidade dos músicos negros num momento em que as rádios populares estavam promovendo uma volta à segregação. As emissoras de FM estavam endurecendo os limites entre os gêneros, testados pelo mercado, tornando-se um conjunto de opções estreitas voltadas para pequenos nichos, separando o rock (branco) do R&B (negro). Ao mesmo tempo, as esperanças de integração do soul dos anos 60 - o "som da jovem América" defendido pela Motown - tinham ruído nos distúrbios do fim da mesma década e na economia urbana dos anos 70.

Isto não diminuiu a qualidade das canções; os anos 70 foram um tipo diferente de era dourada do soul. Menos preocupados em alcançar um público mais amplo e distante, os músicos negros americanos criaram a extrema complexidade do funk, mensagens idealistas e canções quentíssimas para ouvir entre quatro paredes. O toque de gênio de Cornelius esteve em trazer à televisão um formato voltado para um público alvo específico, fazendo com que, mesmo programado para as manhãs de sábado, longe do horário nobre, a atração pudesse ser vista em todo o país. (É possível que o Soul Train tenha também lembrado as emissoras que havia um público negro assistindo; os sitcoms estrelados por negros proliferaram nos anos 70.)

O alcance conquistado pelo Soul Train possibilitou que Cornelius convidasse grandes músicos que tinham raras oportunidades de aparecer na TV americana. Ele escolheu bem. Se a música negra americana era vítima da marginalização na TV - como ocorreu mesmo durante os primeiros anos da MTV -, Cornelius se dispunha a ser o anfitrião de uma festa irresistível. Era uma festa separada, mas muito mais animada. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.