Trechos do livro 'O Pianista no Bordel', de Juan Luis Cebrián

Obra é do fundador e primeiro diretor do diário espanhol 'El País', símbolo da luta que enterrou o franquismo

16 de abril de 2010 | 19h11

JUAN LUIS CEBRIÁN - O Pianista no Bordel foi publicado pela editora Objetiva, com tradução de Eliana Aguiar. Leia trechos:

 

Valor e Preço

 

O capital humano, o talento, é mais necessário que qualquer outra coisa na criação de riqueza. A fidelidade a um conceito, base de qualquer sucesso empresarial, exige paciência e vontade, coisas que não se adquirem nas escolas de administração. O desenvolvimento de grandes e complexos conglomerados empresariais nasce nesse sentido, em geral, de ideias relativamente simples. Citarei algumas que parecem uma obviedade, mas ilustram às mil maravilhas o que quero explicar: o êxito de um jornal depende de seus leitores, da capacidade de encontrar seu mercado e de fazer com que alcance a dimensão adequada. Existem duas condições básicas para um jornal de referência: a credibilidade e a independência. A rentabilidade é garantia da manutenção desta última e constitui ao mesmo tempo a base de sua qualidade profissional. A atividade editorial de um jornal ser resume a um pacto entre seus leitores, os jornalistas que o escrevem e os acionistas da empresa. Sem esta comunhão de interesses, o fracasso é certo.

 

Escritores de jornais

Desde que foi inventado, o jornalismo é um gênero da literatura; sua história está cheia de grandes cronistas que exerceram os dois ofícios de forma simultânea e, como se costuma dizer, sem solução de continuidade. Não estou me referindo apenas ao fato de que publicaram, ou publicam, seus romances como folhetins ou seriados nas páginas dos jornais, mas igualmente à combinação que fazem de suas habilidades de criadores e de suas habilidades como repórteres, articulistas, críticos ou comentaristas da atualidade. O século XIX é pródigo de exemplos, a começar por Charles Dickens, e o centenário passado acabou consagrando o casamento entre as duas profissões. É impossível imaginar a existência de escritores do calibre de Hemingway ou García Márquez, de Camus ou Vargas Llosa sem levar em conta seus desempenhos como editorialistas, correspondentes, enviados especiais ou até mesmo artesãos ou diagramadores.

 

Por quem os sinos dobram não poderia ter sido escrito, se o autor não tivesse vivido as aventuras de ser correspondente de guerra da Espanha. Camus viveu a experiência incomparável de fundar e dirigir um jornal, o Combat, colaborou assiduamente com outras publicações, como L'Express, exerceu ativamente todos os ofícios jornalísticos e até se permitiu teorizar sobre eles: "Se os escritores tivessem o mínimo apreço pela profissão, negar-se-iam a publicar em qualquer meio. Mas ao que parece, é preciso agradar e, para agradar, é preciso submeter-se. Falemos com franqueza: pelo visto, é difícil desfechar um ataque frontal contra estas máquinas de fabricar ou destruir reputações. Quando um jornal, por mais ignóbil que seja, tem uma tiragem de 600 mil exemplares, longe de atacar seu diretor, tratam logo de convidá-lo para jantar. Nossa tarefa, sem dúvida, consiste em não cair nesta suja dubiedade. Nossa honra dependa da energia com que nos neguemos a aceitar tal compromisso". Depois de ganhar o Nobel, Gabo voltou inúmeras vezes às tarefas de repórter não somente em seu notável livro Notícia de um sequestro, mas também em vibrantes crônicas escritas para a imprensa colombiana e espanhola sobre temas como o caso Lewinsky ou as viagens de Hugo Chávez a Cuba.

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