Trechos de 'Diário' de Tarkovski e roteiro de 'Hoffmanniana'

Trecho do Diário de Andrei Tarkovski (registro do dia 23 de maio de 1986)

17 de março de 2012 | 03h00

"Anatole Dauman veio me falar dos prêmios concedidos em Cannes; ele me pareceu muito afetado pela decisão 'injusta' do júri sobre O Sacrifício. Ele conta que o filme que recebeu a Palma foi feito por um realizador inglês com dinheiro americano e que ele mesmo não o viu até o fim. É preciso mesmo estar muito seguro do sucesso para trazer um filme não visto. Mas as grandes recompensas, para mim, são aquelas que nos tornam respeitáveis. Bem, pelo menos os americanos, apesar de suas manias, pouco a pouco começam a investir no cinema de autor. Falei com Anatole sobre os problemas do cinema contemporâneo. Ele é um dos raros produtores que sentem e compreendem a natureza do cinema, o seu valor . Percebe-se porque ele trabalhou com Bresson, Godard, Wenders, Colpi...

Os outros produtores, infelizmente, não parecem muito interessados em financiar filmes de autor; para eles, o cinema não é mais que um meio de fazer dinheiro e a película é apenas uma mercadoria como outra qualquer. É um homem extraordinário esse Dauman. Aprendi a conhecê-lo nos últimos tempos: aparentemente frio e rígido, ele é, ao contrário, extremamente suave, diria até mesmo sentimental e ingênuo, incontestavelmente bom. A bondade é um dom natural que não se aprende. Ou a temos, ou não. Sou reconhedio a Anatole por sua simpatia e toda ajuda que nos deu. O apartamento que ocupamos fica no prédio que pertenceu a seus pais. A noite que passei com ele me deixou a mais agradável impressão. 'O que é artificial, excepcional, é isso que atrai a atenção. Busque a simplicidade, que, melhor do que qualquer outra coisa, aproxima as pessoas' (Tolstoi)".

Tradução de Antonio Gonçalves Filho

Trecho do roteiro do filme Hoffmanniana, que Tarkovski não conseguiu filmar

"Um som estridente e um grito retumbante - 'o espetáculo vai começar' - o despertam de seu doce sono. Os contrabaixos zumbem... um toque dos tímbalos... os trompetes... um lá puro sustentado por um oboé... a afinação dos violinos. Onde estará ele? 

Ah, sim! Ele dormiu no quarto de hotel onde se escondeu quando a doença começou a corroer sua alma. (...) Hoffmann acorda. Dormiu de roupa e tudo. Afasta a pesada coberta, segue até o lavatório e enfia a cabeça sob a água fria. Penteia os cabelos e puxa a descarga.

Um garoto aparece.

'Mas em nome dos céus, o que significa essa música confusa?'

'Vossa Excelência por acaso não sabe que este hotel fica ao lado de um teatro? Esta cortina dá acesso a um pequeno corredor que o levará diretamente ao número 23; é o camarote dos estrangeiros.'

'Um camarote para os  estrangeiros?'

'Sim, o pequeno camarote dos estrangeiros, para duas pessoas, mas reservado a pessoas distintas! Se for do agrado de Vossa Excelência... hoje apresentaremos Don Giovanni, do célebre Mozart, de Viena. Colocaremos na conta o preço do ingresso'."

Tradução de Antonio Gonçalves Filho

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