TRECHO

CONVERSA NO CATEDRAL

O Estado de S.Paulo

17 de março de 2013 | 02h12

Autor:

Mario

Vargas Llosa

Tradução:

Ari Roithman

e Paulina Wacht

Editora:

Alfaguara

Brasil

(576 págs.,

R$ 56,90)

"Vê uma longa fila no ponto de ônibus para Miraflores, atravessa a praça e ali está Norwin, oi irmão, numa mesa do Bar Zela, sente-se Zavalita, bebendo um chilcano enquanto um rapaz engraxava os seus sapatos, e convidava para beber alguma coisa. Ainda não parece estar bêbado e Santiago se senta, manda o engraxate lustrar os seus sapatos também. Pronto chefe, agorinha chefe, iam ficar feito espelhos, chefe.

"Há séculos que você não aparece, senhor...

...editorialista", diz Norwin. "Está mais satisfeito na página editorial que no noticiário local?"

"Trabalha-se menos", encolhe os ombros, talvez tenha sido nesse dia que o diretor o chamou, pede uma Cristal gelada, não queria substituir Orgambide, Zavalita?, ele tinha estudado na universidade e podia escrever editoriais, não é, Zavalita? Pensa: estou f... "Eu chego cedo, me dizem o assunto, eu aperto o nariz e em duas ou três horas, pronto, puxo a descarga e tudo terminado."

"Eu não faria editoriais nem por todo o ouro do mundo", diz Norwin. "Você fica longe da notícia, e jornalismo é notícia, Zavalita, entenda isso. Eu vou morrer na reportagem policial, não tem jeito. Aliás, o Carlitos morreu?"

"Continua na clínica, mas vai receber alta logo", diz Santiago. "Ele jura que desta vez vai largar a bebida."

"É verdade que uma noite ele viu baratas e aranhas quando foi dormir?", diz Norwin.

"Levantou o lençol e milhares de aranhas, de ratos vieram para cima dele", diz Santiago. "Saiu pelado pela rua aos gritos."

Norwin ri e Santiago fecha os olhos: as casas de Chorrillos são uns cubos com grades, uns buracos cheios de rachaduras por causa dos tremores de terra, lá dentro se multiplicam cacarecos e pestilentas velhinhas todas empoeiradas, de chinelo, cheias de varizes. Uma figurinha corre entre os cubos, seus berros estremecem a madrugada viscosa e enfurecem as formigas, lacraias e escorpiões que a perseguem. O consolo no álcool, pensa, contra a morte lenta o delirium tremens. Tudo certo, Carlitos, cada qual se defendia do Peru como podia.

"Qualquer hora dessas também vou ver os tais bichinhos", Norwin observa o seu chilcano com curiosidade, sorri de leve. "Mas não existe jornalista abstêmio, Zavalita. A bebida inspira, acredite em mim."

O garoto terminou o serviço com Norwin e agora trabalha nos sapatos de Santiago, assobiando.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.