Trecho do romance 'Os Deixados Para Trás', de Tom Perrotta

"Laure Garveynão tinha sido educada para acreditar no Arrebatamento. Ela não tinha sido educada para acreditar em nada, na verdade, a não ser na tolice da crença em si.

Tom Perrotta,

20 Julho 2012 | 17h53

Somos agnósticos, dizia para seus filhos, no tempo em que eram pequenos e precisavam de um jeito de se definirem diante de seus amigos católicos, judeus e unitaristas. Não sabemos se existe um Deus, nem ninguém sabe. Podem até dizer que sabem, mas na verdade não sabem.

Na primeira vez que ouviu falar do Arrebatamento, Laurie era caloura na faculdade e frequentava as aulas de um curso intitulado Introdução às Religiões do Mundo. O fenômeno que o professor descreveu lhe pareceu uma piada, hordas de cristãos flutuando para fora de suas roupas, erguendo-se no ar através do telhado de suas casas e do teto de seus carros a fim de encontrarem-se com Jesus no céu, enquanto todos os outros ficavam parados à sua volta, boquiabertos, perguntando-se onde aquela boa gente tinha ido parar. A teologia permanecia como algo nebuluso para Laurie, mesmo depois de ter lido a seção sobre "Dispensacionalismo Pré-milenarista" em sua apostila do curso, com todo aquele lero-lero sobre o Armagedon, o Anticristo e os Quatro Cavaleiros do Apocalipse. Parecia uma cafonice religiosa, tão brega quanto uma pintura feita sobre veludo preto, o tipo de fantasia que tinha apelo para gente que comia frituras demais, dava surra nos filhos e não tinha nenhum problema com a teoria segundo a qual seu Deus cheio de amor tinha inventado a aids para punir os homossexuais. Durante os anos que seguiram, ela de vez em quando surpreendia alguém lendo um daqueles livros deixados de propósito no aeroporto ou num trem, os chamados Deixados para Trás, e sentia uma pontada de pena e até um pingo de ternura pelo pobre idiota que não tinha nada melhor para ler e nada mais para fazer senão ficar sentado sonhando com o fim do mundo."

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