Trecho do conto 'O Príncipe dos Prosadores', do livro 'Velórios', de Rodrigo Melo de Andrade

"- Este é que teria sido, se quisesse, o Príncipe dos Prosadores.

Rodrigo Melo de Andrade,

20 de julho de 2012 | 17h41

E apontava o amigo morto, entre os quatro círios tremeluzindo à brisa que soprava pela janela aberta. O dia tinha raiado sem que se desse por isso e, àquela hora, eram poucas as pessoas que restavam no velório. Eles sentiam o torpor agradável do sono próximo e só de esguelha, uma vez por outra, é que avistavam o cadáver, já integrado no mobiliário da sala. No jardim cantavam vagamente uns passarinhos e as árvores oscilavam devagar, ao vento fresco. A conversa sonolenta não tinha possibilidade de se animar. Mas uma empregada trouxe a bandeja de café e o líquido quente e forte estimulou-os levemente, atenuando a dormência que sentiam nos membros e no espírito.

- Pois é o que eu lhe digo: ele, se quisesse, teria sido o príncipe dos prosadores.

Repetiu a frase com convicção e explicou que o amigo tivera realmente um talento literário excepcional. Escrevera na mocidade várias coisas positivamente admiráveis, numa prosa que ninguém tinha igualado. Entretanto, as exigências da atividade profissional o tinham desviado da literatura e, hoje em dia, já não havia quem se lembrasse do que ele escrevera alguns anos atrás.

O outro acendeu mais um cigarro e lançou um olhar distraído ao cadáver, querendo ponderar que no Brasil faltava a noção precisa do que fosse um prosador digno desse nome, Mas o amigo do defunto estava com a palavra e fazia com método o elogio do estilo daquele artista consumado a quem não se tinha prestado a homenagem que merecia. Recordava-lhe contos e fantasias brilhantes que jaziam esquecidos nas coleções de revistas literárias efêmeras. Aludia ao vigor e à concisão de suas melhores páginas. Mencionava outras qualidades características do escritor malogrado.

Foi quando a moça loura, que tinha aparecido horas antes na sala e rezara algum tempo junto ao caixão, deu entrada novamente ali, emergindo por certo de algum quarto onde estivera a consolar a viúva. Espantou a mosca que pousava na testa do defunto, ajeitou algumas flores no caixão e ajoelhou-se para rezar outra vez."

 

 

Leia na página do Acervo Estadão um artigo de Paulo Rónai sobre o livro, publicado em 29/9/2974.

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