Trecho de uma das cartas de Júlio Mesquita Filho

O livro Cartas do Exílio, que a editora Albatroz faz chegar às livrarias, reúne a correspondência de Júlio de Mesquita Filho 1892-1969) com sua mulher Marina, correligionários, filhos, e também artigos que publicou em jornais e revistas da época no Brasil, Europa e Argentina, durante os dois exílios no período dos anos 30 e 40 do século passado, de que foi vítima o jornalista e diretor de O Estado de S. Paulo, por ordem do então presidente da República Getúlio Vargas. Leia trecho da carta dirigida de Buenos Aires a Washington, ao acadêmico especializado em assuntos latino-americanos Lawrence Duggan, em 12 de novembro de 1940."...Veja, por exemplo, dizia ao senhor Armour, o que se passa com a embaixada brasileira em Berlim. Seu titular era, até a véspera do conflito europeu, o senhor Muniz de Aragão. Nessa mesma ocasião, ocupava a subsecretaria de Relações Exteriores do Brasil o senhor Cyro de Freitas Valle. Porém, no momento em que a crise européia se intensificava, operou-se uma grande modificação nos quadros de nossa diplomacia. O embaixador Aragão era transferido para Londres e para Berlim era enviado o senhor Cyro de Freitas Valle, passando com essa nomeação fora de lugar por cima de todos os embaixadores de carreira, de acordo com a escala hierárquica existente. Para que o senhor ministro Freitas Valle pudesse ocupar seu novo cargo, foi necessário ao senhor Getúlio Vargas promovê-lo mediante um decreto, à categoria de embaixador, com visível prejuízo para outros ministros de maior antiguidade. Pois bem, dizia eu ao senhor embaixador Armour, o senhor SAE quem é o senhor Cyro de Freias Valle? Nada mais, nada menos, que duas vezes primo-irmão do senhor Osvaldo Aranha, pois é filho de uma irmã do pai deste político brasileiro e de um irmão de sua mãe. Não lhe parece, senhor embaixador, continuava, profundamente estranho que o chanceler brasileiro tratasse de enviar a Berlim, no exato momento em que ia ser jogada a partida decisiva entre a Democracia e o Totalitarismo, um primo-irmão, o mais íntimo de seus colaboradores, justamente aquele que por todos os motivos tinha o mais decidido interesse em que o chanceler brasileiro se saísse bem da arriscada partida que ia jogar e que, em caso de fracassar, teria o mesmo interesse que seu próprio chefe, no sentido de que nada fosse divulgado daquilo que pudesse ter sido tramado entre Berlim e o Rio de Janeiro?" (Cartas do Exílio, p.208)

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