Trecho de "Métaphysique des Tubes"

"Foi um dia extraordinário. Nada se passava de especial. Os pais exerciam seu métier de pais, os filhos exerciam suas missões de crianças, o tubo concentrava-se na sua vocação cilíndrica.E foi entretanto o dia mais importante de sua história. Como tal não guardamos dele traço algum. Ironicamente, não conservamos arquivo algum do dia no qual um homem se põe em pé pela primeira vez, nem do dia no qual um homem enfim compreende a morte. Os acontecimentos mais fundamentais da humanidade passam quase despercebidos.Súbito, a casa se encheu de uivos. A mãe e a governanta, petrificadas, procuravam a origem dos gritos. Um cantor se infiltrou na moradia? Um louco acaba de escapar de um asilo?Em desespero de causa, a mãe foi olhar no quarto. E aquilo que viu a deixou estupefata: Deus estava sentado em seu berço e berrava tão alto quanto um bebê de dois anos pode berrar.A mãe aproximou-se da cena mitológica: ela não reconhecia aquele que, em dois anos, havia se constituído num espetáculo pacífico. Ele mantinha abertos e fixos os dois grandes olhos, de modo que a cor verde-gris ficava mais fácil de identificar; mais perto, as pupilas mostravam-se inteiramente negras, de uma cor de paisagem incendiada.O que terá acontecido de tão forte para animar seus olhos pálidos e torná-los negros como o carvão? Que terá acontecido de tão terrível para despertá-lo de seu longo sono e transformá-lo nessa máquina de gritar?"

Agencia Estado,

31 de dezembro de 2000 | 16h35

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