Trecho de 'Guerra e Paz'

"Anna Pávlovna, em seu salão de visitas, aproximava-se de um círculo que emudecera ou que falava em excesso e com uma palavra ou uma troca de posições restabelecia mais uma vez a decorosa e regular máquina da conversação.  Mas, em meio a tais cuidados, via-se nela o tempo todo um medo especial em relação a Pierre (...).

19 Novembro 2011 | 06h00

Para Pierre, educado no exterior, aquela noite em casa de Anna Pávlovna era a primeira reunião social à qual participava na Rússia. Sabia que ali se achava reunida toda a intelligentsia de Petersburgo e, como uma criança numa loja de brinquedos, não sabia o que escolher. O tempo todo receava deixar escapar as conversas inteligentes que aí poderia escutar. Olhando para as expressões compenetradas e elegantes dos rostos ali reunidos, esperava a  todo momento qualquer coisa de especialmente sábio. Por fim, aproximou-se de Morio. A conversa lhe pareceu interessante e ali Pierre se deteve, esperando uma oportunidade para expressar seus pensamentos, como os jovens gostam de fazer."

***

"A princesa Hélène sorriu; levantou-se com o mesmo sorriso imutável de uma mulher bela em tudo, com o qual havia entrado no salão. Com um leve rumor do vestido branco de baile enfeitado com hera e musgo, e radiante com a brancura dos ombros, o lustro dos cabelos e dos brilhantes, ela passou em linha reta no meio dos homens, que lhe abriram caminho, sem olhar para ninguém, mas sem parar de sorrir e como que concedendo amavelmente a todos o direito de admirar a beleza do seu talhe, dos ombros fartos, do peito e das costas muito descobertos, como então era moda, e, parecendo levar consigo o brilho do baile, aproximou-se de Anna Pávlovna. Hélène era tão bonita que não só não se percebia nela o menor traço de coquetismo como, ao contrário, ela parecia ter vergonha de sua beleza incontestável que produzia um efeito forte e triunfante demais."

Guerra e Paz, de Liev Tolstói. Tradução de Rubens Figueiredo (Cosac Naify)

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