Trecho de "De Profundis", de Oscar Wilde

Fosse qual fosse sua conduta para comigo, eu sempre soube que no fundo você me amava. Embora percebesse com clareza que minha posição no mundo da Arte, o interesse que minha personalidade sempre despertou, meu dinheiro, o luxo em que vivia, os mil e um detalhes que tornam a vida tão cheia de charme e tão deliciosamente improvável, como acontecia comigo, todas essas coisas eram elementos que exerciam sobre você um fascínio e o faziam ficar a meu lado; apesar de tudo isso, sempre houve alguma coisa além, uma estranha atração: você me amava mais do que a qualquer outra pessoa. Mas, assim como eu próprio, você teve em sua vida uma terrível tragédia, embora de natureza inteiramente diversa daquela que me atingiu. Quer saber o que foi? Foi o seguinte. Em você, o Ódio sempre foi mais forte do que o Amor. O Ódio que sente por seu pai é de tal estatura que ele venceu, ultrapassou, obscureceu seu amor por mim. Não havia uma luta entre esses dois sentimentos ou, se havia, era mínima. Tamanha era a dimensão do Ódio por seu pai e tão monstruoso era seu crescimento! Você não se deu conta de que não há lugar para essas duas paixões numa só alma. Elas não podem conviver no seio dessa casa tão bem esculpida. O Amor é alimentado pela imaginação, através da qual nos tornamos mais sábios do que supomos, melhores do que nos sentimos, mais nobres do que somos. Através da qual podemos ver a Vida como um todo. Através da qual, exclusivamente, podemos compreender os outros em sua realidade e em suas relações ideais. Somente aquilo que é bom, e pelo bem concebido, é capaz de alimentar o Amor. Mas ao Ódio qualquer coisa pode nutrir.

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