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Trapero traz seu noir ao Brasil

Argentino fala de Carancho e diz que nenhum filme dá conta de um país

Luiz Carlos Merten, O Estado de S.Paulo

04 de outubro de 2010 | 00h00

Pablo Trapero está de volta ao Festival do Rio, onde apresentou, anos atrás, Do Outro Lado da Lei (El Bonaerense). Considerado um dos maiores diretores argentinos da nova geração, ele curte seu maior sucesso de público no próprio país - Carancho fez 700 mil espectadores, uma cifra elevada. O filme acaba de ser indicado pela Argentina para concorrer a uma das vagas no Oscar de melhor produção em língua estrangeira. A argentina ganhou, este ano, o Oscar da categoria com O Segredo de Seus Olhos, de Juan José Campanella. Vai repetir a dose?

Trapero está no Rio justamente para mostrar Carancho no festival. Ele apresentou o filme ontem à noite e logo em seguida rumou para o aeroporto. Quer estar hoje em casa porque é um dia especial - faz 39 anos. O último ano antes dos "enta". Parabéns para você! "Obrigado", ele responde em português. Trapero está contente com a indicação para concorrer ao Oscar, mas faz a ressalva de que o prêmio virou uma disputa esportiva, uma competição, acima de tudo. "Ganhar o Oscar é como fazer gol numa partida decisiva", compara. Mas, admite, já que está em campo para concorrer, perdão, disputar, também gostaria de fazer gol.

Justamente na semana passada, no foco que o Festival do Rio lança sobre o cinema da Argentina, dirigentes das agências de cinema dos dois países, a Ancine e o Incaa, assinaram um acordo, criando um fundo comum. Por enquanto, não é muito dinheiro, mas, além de beneficiar quatro projetos, o acordo tem outro aspecto muito importante, segundo Trapero. "Vai promover a integração. É muito importante estimular que filmes brasileiros sejam exibidos na Argentina. Vemos pouquíssimo da produção de vocês, sei que, no outro sentido, a movimentação é maior. Há mais filmes argentinos no Brasil do que brasileiros na Argentina."

A pergunta é inevitável. O público brasileiro gosta do cinema argentino porque, além de bem escritos e interpretados, os filmes tratam da classe média, que vai aos cinemas - aqui também - e prefere se identificar com esse segmento, ao invés da marginalidade que, de armas na mão, invade uma parcela significativa da produção nacional. Trapero acha que o cinema argentino tem uma diversidade maior que isso. Existe um cinema mais comercial, talvez não tão bem feito. E o cinema brasileiro tem filmes muito bons, reconhece. O incremento do mercado, em ambos os sentidos, poderia colocar as coisas numa perspectiva melhor.

Como produtor dos próprios filmes - e dos de outros jovens diretores -, ele se alegra com o sucesso de Carancho. Diz que não tem do que se queixar, porque, nos últimos anos, ao terminar um projeto já está envolvido no seguinte. Foi assim com Leonera. Quando lançou o filme, já trabalhava em Carancho. Agora mesmo, trabalha no próximo filme. O prestígio facilitou sua vida? É fácil para Trapero conseguir financiamento, no país ou no exterior? "Ficou mais fácil, sim, mas é preciso relativizar essa facilidade. De alguma forma, meus filmes ficam cada vez mais caros. Sou um diretor econômico, até porque sou meu produtor e sei como as coisas funcionam, mas os custos aumentam continuamente. Não basta buscar dinheiro. Tenho sempre de buscar mais dinheiro."

Carancho trata da indústria que se desenvolveu na Argentina por causa das mortes acidentais no trânsito. O filme é interpretado por Ricardo Darín e Martina Gusman (de Leonera). E nasceu para ser um noir - "O meu noir", define o diretor. "Alguns críticos me acusaram de ser muito sombrio. A Argentina não é tão sombria, dizem." Embora consciente de que nenhum filme consegue dar conta, sozinho, da complexidade de um país, Trapero afirma que tentou, desta vez, discutir a ética pessoal. "As pessoas e os meios discutem a ética dos governantes, mas transigem muito no plano pessoal." Talvez venha daí o incômodo que Carancho consegue provocar.

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