Transversal do tempo

Caixa com o que Elis fez nos anos 60 e 70 prova a máxima: 30 anos depois de sua morte, ela canta cada vez melhor

LAURO LISBOA GARCIA , ESPECIAL PARA O ESTADO, O Estado de S.Paulo

11 de fevereiro de 2012 | 03h11

A voz de Elis Regina (1945-1982) já era um espanto aos 16 anos, quando gravou o primeiro LP, Viva a Brotolândia, renegado por ela até o fim. Até ali, tendo Ângela Maria como referência, era ingênua personagem coadjuvante na engrenagem do mercado, lançada como concorrente de Celly Campello. A técnica, o suingue, a incrível divisão no samba, a entrega emocional, a autonomia na escolha de repertório, músicos, arranjos, capas dos discos, o profissionalismo rigoroso, enfim, a identidade e a marca da personalidade só vieram quando foi contratada pela gravadora Philips. Essa fase áurea de Elis emerge novamente agora, para lembrar os 30 anos de sua morte, em duas caixas da Universal, com todos os álbuns das décadas de 1960 e 70 e três compilações de raridades.

Os álbuns todos já tinham sido editados em CD na caixa Transversal do Tempo, de 1998, e a compilação Pérolas Raras é a mesma de 2006. Quanto a isso não há muita novidade. Porém, todos passaram por nova masterização, os encartes com todas as letras e fichas técnicas reproduzem fielmente as artes originais dos LPs, como o belíssimo Elis, de 1974, que tinha no pingo do 'i' vazado uma foto dela na parte interna da capa dupla. Além de takes alternativos de algumas canções em na compilação em CD duplo No Céu da Vibração (1968-1981), há a gravação inédita de Comigo É Assim (Luiz Bittencourt/José Menezes).

O projeto é do pesquisador carioca Rodrigo Faour, que colheu depoimentos inéditos de gente que compartilhou momentos importantes da carreira de Elis, entre cantores, compositores, técnicos de estúdio e produtores, como Jair Rodrigues, César Camargo Mariano, Amilton Godoy e Rubinho Barsotti (ambos do Zimbo Trio), Aldir Blanc, Manoel Barenbein, Nelson Motta e Roberto Menescal. Reunido em dois libretos (um em cada caixa), esse material é o que dá maior sustentação a esses relançamentos, com um perfil de Elis traçado por quem realmente fez a história com ela.

O faro de Elis para descobrir (e disputar com outras cantoras) novos talentos é bem conhecido. Sua forte ligação com Milton Nascimento, Edu Lobo, Ivan Lins, João Bosco e Gilberto Gil foi além de meramente revelá-los. Elis não fazia por menos e tornou-se a maior intérprete de cada um deles em diversas fases. Cada gravação é um marco, desde Reza (Edu Lobo/Ruy Guerra), a faixa de abertura do primeiro álbum desse período (Samba Eu Canto Assim, 1965).

Roda e Lunik 9, ambas de Gil, e Canção do Sal (Milton) no álbum seguinte, Elis (1966); Madalena (Ivan), de Ela... (1971); Bala com Bala (Bosco e Blanc), de Elis (1972); e tantas outras deles e de outros de sua geração. "Elis, antes de tudo, era muito segura nas suas escolhas", diz Armando Pittigliani, produtor de quatro discos dela. "Sua obsessão maior era provar que era a maior cantora do Brasil, com opção de isso se estender por todo o planeta. E isso ela não escondia de ninguém."

Menescal lembra que nas gravações Elis "tirava de letra" o que era "uma tortura" para a maioria dos cantores. Ela gravava tudo em duas semanas. "E colocava a voz junto com a orquestra e grupo. Isso não era praxe nas gravadoras, ela é que peitava para fazer dessa forma", declara no encarte. "E muitas gravações dela de estúdio eram de primeira. Dificilmente repetia."

Por essas e outras que não parece tão ruim o disco Elis Especial (1979), o último dessas caixas, lançado à revelia dela, quando a cantora rompeu contrato com a Philips. É uma compilação de sobras de estúdio, canções em que ela tinha colocado apenas a voz-guia e, naturalmente, o lançamento a deixou irritadíssima.

Intérprete das mais sérias e criteriosas, ela também se dava o direito de brincar, como quando gravou duas canções de Pelé num compacto com participação dele. A crítica torceu o nariz. Há quem critique também a brincadeira com Tom Jobim no final de Águas de Março, no clássico Elis & Tom (1974), uma canção de letra tão dramática, que ela tinha gravado sozinha em 1972 com a seriedade adequada. Porém, é o marco do encontro de dois gigantes.

O próprio Vinicius de Moraes (1913-1980) não gostou da gravação dela para Canto de Ossanha. Outro álbum dos mais incensados, Falso Brilhante (1976), também provocou estranhamento por fugir do conceitual, reunindo material eclético de um show incomparável. Passou dos boleros, calipsos e roquinhos inconsequentes para balançar na bossa e cair no samba, embarcou no tropicalismo, foi um dos alicerces do que se convencionou chamar de MPB, provou o gosto da soul music e da canção de protesto, revelou para outras gerações clássicos do cancioneiro antigo e, enfim, estabeleceu o padrão Elis acima de qualquer gênero. Sem risco de perder a validade.

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