Jonne Roriz/AE
Jonne Roriz/AE

Transparência que renasce

Projetos restauram a famosa residência e seus acervos

Maria Eugênia de Menezes, O Estado de S.Paulo

15 de maio de 2011 | 00h00

Em um Morumbi quase desabitado, ela chamava atenção. Foi o povo que morava nos sítios e chácaras das cercanias que começou a chamar de "Casa de Vidro" a residência que Lina Bo Bardi construiu, no alto de um morro. Hoje, em meio a centenas de árvores, ela passa quase despercebida para quem anda pelo bairro. Durante alguns anos, esteve interditada. Não faz muito tempo, os jornais alardeavam seu estado crítico. Mas, aos poucos, a velha construção ressurge.

"Ainda faltam o paisagismo, a impermeabilização da laje e o sistema elétrico", ressalva Malu Villas Bôas, coordenadora executiva do Instituto Lina Bo e P. M. Bardi. A casa, porém, já está bem próxima do que foi nos anos 1950. Os finos pilotis, que sustentam a enorme caixa transparente, foram tratados. A base horizontal de concreto armado, recuperada. Vidros, trocados. Caixilhos metálicos, consertados. "Pouquíssimas coisas tiveram de ser completamente substituídas. A estrutura é toda tão boa que quase tudo pode ser recuperado", comenta Malu, que registrou em fotografias todas as etapas da empreitada.

Uma das maiores dificuldades, ela aponta, foi conseguir eliminar os cupins. Eles estavam espalhados não só pelos 750 m² de área construída, como por todo o terreno: 6.722 m² de mata brasileira. O processo para eliminação da praga levou mais de dois anos e teve de ser conduzido pelo Instituto de Pesquisas Tecnológicas (IPT) e pelo Instituto de Pesquisas Energéticas e Nucleares (Ipen).

Cerca de R$ 100 mil já foram gastos na recuperação. Além do prédio, também foram restauradas peças de mobiliário - muitas delas projetadas pela própria Lina. A manutenção iniciada em outubro de 2006, contudo, continua em curso. No dia da visita do Estado, homens retocavam as fachadas com cal. Sem argamassa, as paredes não eram pintadas, mas originalmente apenas caiadas. E o cuidado, agora, é para não alterar nada na residência tombada pelo Condephaat desde 1987 e em processo de tombamento de Iphan.

Não é difícil entender por que a Casa de Vidro é reconhecida como patrimônio histórico e arquitetônico. Além do significado que tem per si, o projeto também preconiza todo ideário de arquitetura moderna que Lina aplicaria em significativas obras futuras. Muitos estudiosos enxergam, nesse prédio, um ensaio para aquilo que ela viria a fazer no Masp, sua mais conhecida realização.

O casal, que desembarcou no Rio de Janeiro em 1946, mudou os rumos da cultura e da arte brasileiras. Para quem vinha de Roma, uma cidade cheia de ruínas e monumentos intocáveis, o Brasil era o lugar onde tudo ainda estava para ser feito e criado. "Me senti num país inimaginável, onde tudo era possível", escreveu Lina sobre suas primeiras impressões da nova terra.

No ano seguinte, Pietro Maria Bardi seria convidado por Assis Chateaubriand, diretor dos Diários Associados, para criar um grande museu de arte. Tiveram que se transferir do Rio para São Paulo. Aqui ficaram. E ela se naturalizaria brasileira já em 1951. "Quando a gente nasce, não escolhe nada, nasce por acaso", escreveu em uma breve autobiografia. "Eu não nasci aqui, escolhi este lugar para viver. Por isso, o Brasil é meu país duas vezes, é minha pátria de escolha." Deslumbrada pelas manifestações populares, Lina se tornaria grande colecionadora desse tipo de arte. Sua antiga morada ainda guarda centenas das peças que ela recolheu ao longo da vida: artefatos, ex-votos, utensílios de madeira.

Arquitetura pobre. O Masp ocupou primeiro uma sede provisória na Rua 7 de Abril. Somente em 1968 ficaria pronto o edifício da Avenida Paulista, símbolo do que ela chamaria de "arquitetura pobre". Ali, aproveitava o que aprendera no Nordeste e propunha soluções diretas, livres de rococós, com acabamentos simples e instalações à vista. O mesmo espírito com o qual impregnaria criações como o Sesc Pompeia e o Teatro Oficina.  

Na Casa de Vidro estão guardados 146 projetos de Lina: as plantas, os croquis, os esboços. Trabalhos que transcendem sua atuação como arquiteta e dão conta de uma profissional envolvida com o design de móveis, com cenários para o teatro, com exposições de arte.

Em 2010, um projeto patrocinado pela Caixa Econômica Federal levou adiante parte da catalogação de 7,5 mil desenhos. Atualmente, a Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp) banca a conclusão desse trabalho e a criação de um banco de dados informatizado, que deve dispor as informações na internet.

Com o dispositivo virtual, a vida dos pesquisadores que atualmente recorrem ao Instituto deve ficar mais fácil. Por enquanto, ainda não há planos para abrir a casa completamente. Mas, o espaço, fechado em agosto de 2006, já voltou a receber o público. Interessados podem agendar visitas e a intenção, segundo Anna Carboncini, uma das diretoras da entidade, é ampliar esse atendimento para dar conta da demanda crescente. "O interesse pela Lina tem crescido muito. Hoje, há um despertar internacional para sua obra", aponta.

Bardi em evidência. Quase invariavelmente, os holofotes estão voltados para a arquiteta romana. Mas, o que se nota durante um passeio pela casa é um rastro do enorme legado de P.M. Bardi. Como colecionador, ele adquiriu peças importantes não apenas para museus e galerias, como também para seu acervo particular. A imensa escultura de uma Diana, trazida da Itália, ainda decora a sala da casa e divide espaço com telas dos séculos 16 e 17.

"A Lina deixou coisas visíveis. O Bardi, que não tinha obras físicas, deixou um número muito grande de escritos, fez um trabalho muito consistente na divulgação da arte. Mas, infelizmente, ficou esquecido", lembra Anna.

Para atrair olhares sobre essa trajetória, um seminário a respeito do crítico e historiador deve ocorrer em setembro, na Unicamp e na Unifesp. Dentro do instituto, o arquivo de Bardi também se tornou objeto de cuidados. Com recursos da Petrobrás, começou a ser organizado este ano o fundo que pertenceu ao casal: uma biblioteca com cerca de 3 mil volumes, 17 mil imagens - entre fotografias, cromos e negativos-, além de 20 mil documentos. Em meio à sua vasta correspondência, aparecem cartas trocadas com interlocutores notáveis, como Marc Chagall, Portinari e Le Corbusier.

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